Tipologias

Casas Algarvias

As casas algarvias distinguem-se pelas açoteias, platibandas coloridas e chaminés rendilhadas, expressões maiores da arquitetura tradicional do Algarve.

Casas Algarvias
Reis Quarteu, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

As casas algarvias constituem uma das tipologias mais reconhecíveis da arquitetura tradicional portuguesa, sobretudo pela tríade de elementos que coroam as suas fachadas e coberturas: a açoteia, a platibanda e a chaminé rendilhada. Caiada de branco, recortada contra o céu do Sul e povoada de motivos geométricos, a casa do Algarve resulta menos de uma escola erudita do que de uma cultura construtiva popular afinada ao clima, aos materiais locais e ao engenho dos mestres pedreiros e caiadores.

Açoteias, telhados e a casa térrea

O traço estrutural mais antigo é a oposição entre cobertura plana e telhado inclinado. Em parte do Barrocal e, de forma emblemática, em Olhão, a casa cobre-se por açoteia — um terraço plano, muitas vezes sobreposto em vários níveis, que substitui o telhado. Servia para secar figo e alfarroba, apanhar o fresco e, do alto dos mirantes e contramirantes, vigiar o mar e comunicar com os vizinhos. É a este sistema de volumes cúbicos branqueados que Olhão deve a fama de “vila cubista”. A leste, em Tavira, domina antes o telhado de quatro águas, de tesouro tijolesco e forte inclinação, que confere à cidade um perfil singular no panorama português.

Esta diversidade levou alguns autores, como o geógrafo Orlando Ribeiro, a ler nelas ecos de contactos marítimos com o Mediterrâneo e o Oriente, fruto da navegação dos pescadores algarvios. Independentemente das origens debatidas, trata-se de soluções enraizadas num território de calcário, cal e luz intensa, próximas no espírito de outras expressões da arquitetura vernacular peninsular, ainda que com gramática própria.

Chaminés rendilhadas e platibandas

Se há um símbolo que se tornou mascote do Algarve é a chaminé rendilhada. Ao contrário do mito que lhe atribui origem mourisca — alimentado pela semelhança com minaretes —, estas chaminés só se generalizaram nos séculos XVII e XVIII, em pleno gosto barroco; o exemplar datado mais antigo que se conhece, em Porches, é de 1713. Recortadas em gesso e cal sobre estruturas de tijolo, distinguem-se vários tipos — cilíndricas, prismáticas, de “balão” ou de grelha — animados por desenhos geométricos vazados.

Conta-se que o mestre canteiro perguntava ao dono da obra “quantos dias de chaminé deseja?”: quanto mais minuciosa e dispendiosa, maior o estatuto que sinalizava — a chaminé como ostentação discreta da casa.

A platibanda, faixa decorativa que remata as fachadas urbanas escondendo a cobertura, completa este vocabulário. Pintada com cores fortes e padrões geométricos, enquadra portas e janelas e, sobretudo nas casas dos séculos XIX e XX, transformou ruas inteiras de Olhão, Tavira ou Loulé num mostruário de cor.

Documentação e salvaguarda

A casa algarvia foi sistematicamente registada no Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal (1955-1961), cuja Zona 6 abrangeu o Algarve e o litoral alentejano. Esse levantamento, hoje referência incontornável, fixou tipologias, plantas e fotografias que documentam um modo de construir então em transformação acelerada.

Vizinha e contrastante é a casa alentejana, de muros espessos caiados e poucos vãos contra o calor da planície; ambas partilham a cal e a economia de meios, mas divergem na expressão da cobertura e do remate. Integradas no património construído da região do Algarve, as casas algarvias continuam ameaçadas pela pressão urbanística e pela substituição de elementos artesanais por imitações industriais. A sua salvaguarda joga-se sobretudo na preservação destes pormenores — açoteia, chaminé e platibanda — que, mais do que ornamento, encerram a memória técnica e a identidade de uma região inteira.

Perguntas frequentes

O que é uma açoteia?
A açoteia é um terraço plano que cobre total ou parcialmente a casa, em vez de telhado. Servia para secar figos, alfarroba e outros frutos, para apanhar o fresco ao fim do dia e para comunicar entre vizinhos por cima dos telhados.
As chaminés algarvias têm origem árabe?
Não. Apesar do aspeto que evoca minaretes, a chaminé rendilhada algarviana só se difundiu nos séculos XVII e XVIII, já em época barroca; a mais antiga conhecida, em Porches, data de 1713. A origem islâmica é um mito popular sem suporte histórico.
O que é uma platibanda?
É a faixa decorativa que remata o topo das fachadas, escondendo o telhado ou a açoteia. Ornamentada com motivos geométricos e cores vivas, tornou-se um dos elementos mais identitários da casa algarvia urbana.

Fontes

  1. A «chaminé algarvia» — Projecto TASA
  2. Casas típicas — VisitAlgarve
  3. Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal — Wikipédia