Tipologias
Casas Algarvias
As casas algarvias distinguem-se pelas açoteias, platibandas coloridas e chaminés rendilhadas, expressões maiores da arquitetura tradicional do Algarve.
As casas algarvias constituem uma das tipologias mais reconhecíveis da arquitetura tradicional portuguesa, sobretudo pela tríade de elementos que coroam as suas fachadas e coberturas: a açoteia, a platibanda e a chaminé rendilhada. Caiada de branco, recortada contra o céu do Sul e povoada de motivos geométricos, a casa do Algarve resulta menos de uma escola erudita do que de uma cultura construtiva popular afinada ao clima, aos materiais locais e ao engenho dos mestres pedreiros e caiadores.
Açoteias, telhados e a casa térrea
O traço estrutural mais antigo é a oposição entre cobertura plana e telhado inclinado. Em parte do Barrocal e, de forma emblemática, em Olhão, a casa cobre-se por açoteia — um terraço plano, muitas vezes sobreposto em vários níveis, que substitui o telhado. Servia para secar figo e alfarroba, apanhar o fresco e, do alto dos mirantes e contramirantes, vigiar o mar e comunicar com os vizinhos. É a este sistema de volumes cúbicos branqueados que Olhão deve a fama de “vila cubista”. A leste, em Tavira, domina antes o telhado de quatro águas, de tesouro tijolesco e forte inclinação, que confere à cidade um perfil singular no panorama português.
Esta diversidade levou alguns autores, como o geógrafo Orlando Ribeiro, a ler nelas ecos de contactos marítimos com o Mediterrâneo e o Oriente, fruto da navegação dos pescadores algarvios. Independentemente das origens debatidas, trata-se de soluções enraizadas num território de calcário, cal e luz intensa, próximas no espírito de outras expressões da arquitetura vernacular peninsular, ainda que com gramática própria.
Chaminés rendilhadas e platibandas
Se há um símbolo que se tornou mascote do Algarve é a chaminé rendilhada. Ao contrário do mito que lhe atribui origem mourisca — alimentado pela semelhança com minaretes —, estas chaminés só se generalizaram nos séculos XVII e XVIII, em pleno gosto barroco; o exemplar datado mais antigo que se conhece, em Porches, é de 1713. Recortadas em gesso e cal sobre estruturas de tijolo, distinguem-se vários tipos — cilíndricas, prismáticas, de “balão” ou de grelha — animados por desenhos geométricos vazados.
Conta-se que o mestre canteiro perguntava ao dono da obra “quantos dias de chaminé deseja?”: quanto mais minuciosa e dispendiosa, maior o estatuto que sinalizava — a chaminé como ostentação discreta da casa.
A platibanda, faixa decorativa que remata as fachadas urbanas escondendo a cobertura, completa este vocabulário. Pintada com cores fortes e padrões geométricos, enquadra portas e janelas e, sobretudo nas casas dos séculos XIX e XX, transformou ruas inteiras de Olhão, Tavira ou Loulé num mostruário de cor.
Documentação e salvaguarda
A casa algarvia foi sistematicamente registada no Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal (1955-1961), cuja Zona 6 abrangeu o Algarve e o litoral alentejano. Esse levantamento, hoje referência incontornável, fixou tipologias, plantas e fotografias que documentam um modo de construir então em transformação acelerada.
Vizinha e contrastante é a casa alentejana, de muros espessos caiados e poucos vãos contra o calor da planície; ambas partilham a cal e a economia de meios, mas divergem na expressão da cobertura e do remate. Integradas no património construído da região do Algarve, as casas algarvias continuam ameaçadas pela pressão urbanística e pela substituição de elementos artesanais por imitações industriais. A sua salvaguarda joga-se sobretudo na preservação destes pormenores — açoteia, chaminé e platibanda — que, mais do que ornamento, encerram a memória técnica e a identidade de uma região inteira.
Perguntas frequentes
- O que é uma açoteia?
- A açoteia é um terraço plano que cobre total ou parcialmente a casa, em vez de telhado. Servia para secar figos, alfarroba e outros frutos, para apanhar o fresco ao fim do dia e para comunicar entre vizinhos por cima dos telhados.
- As chaminés algarvias têm origem árabe?
- Não. Apesar do aspeto que evoca minaretes, a chaminé rendilhada algarviana só se difundiu nos séculos XVII e XVIII, já em época barroca; a mais antiga conhecida, em Porches, data de 1713. A origem islâmica é um mito popular sem suporte histórico.
- O que é uma platibanda?
- É a faixa decorativa que remata o topo das fachadas, escondendo o telhado ou a açoteia. Ornamentada com motivos geométricos e cores vivas, tornou-se um dos elementos mais identitários da casa algarvia urbana.