Tipologias

Arquitetura Vernacular e Popular

A arquitetura vernacular e popular portuguesa: casas tradicionais por região, materiais locais e o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal (1955-1961).

Arquitetura Vernacular e Popular
Pratheepps, CC BY-SA 3.0 — Wikimedia Commons

A arquitetura vernacular — também dita popular ou tradicional — designa o conjunto da construção erguida segundo saberes herdados de cada lugar, com os materiais que a terra oferecia e, em regra, sem a intervenção de arquitetos. É a arquitetura sem autor reconhecido, fixada por gerações de mestres pedreiros e carpinteiros, que respondia diretamente ao clima, ao relevo, à economia agrícola e aos modos de vida de cada região. Por oposição às grandes tipologias eruditas reunidas nas tipologias do património edificado, trata-se de um património quotidiano, feito de casas de lavoura, currais, fornos, moinhos e armazéns.

O território como matéria

A primeira chave da arquitetura vernacular portuguesa é o material disponível. No Norte granítico, a pedra aparelhada define as casas de granito do Minho, robustas e de telhado de quatro águas, frequentemente com a habitação sobre o estábulo. Nas serras da Beira e do interior, o xisto lascado ergue aldeias inteiras de tons acinzentados, encavalitadas nas encostas. Mais a sul, onde falta a pedra de construção, dominam a taipa e o adobe caiados de branco: são as casas térreas alentejanas, de volumes simples e poucas aberturas, pensadas contra o calor. No litoral algarvio, a mesma lógica produz açoteias, platibandas recortadas e chaminés rendilhadas. A leitura cruza-se, por isso, com as soluções regionais explicadas nas páginas sobre as casas de granito do Minho, as casas de xisto e as casas alentejanas.

A divisão clássica desta arquitetura opõe um Norte de casa de dois pisos — homem e gado sob o mesmo teto — a um Sul de casa térrea espraiada; entre os dois, uma faixa de transição onde as duas lógicas se misturam.

A esta gramática habitacional juntam-se as construções de apoio, tão expressivas como a própria casa. Os espigueiros e canastros do Minho e de Trás-os-Montes — celeiros ventilados, erguidos sobre esteios para guardar o milho ao abrigo da humidade e dos roedores — são talvez o ícone mais reconhecível deste universo construtivo.

O estudo sistemático desta arquitetura deve muito a um momento fundador: o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal, promovido pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos e realizado entre 1955 e 1961. Sob impulso de Francisco Keil do Amaral, seis equipas de arquitetos percorreram o país, dividido para o efeito em seis zonas — do Minho e Douro Litoral ao Algarve, passando por Trás-os-Montes, as Beiras, a Estremadura e Ribatejo e o Alentejo. Reuniram milhares de fotografias, desenhos e notas que culminaram, em 1961, na obra em dois volumes Arquitectura Popular em Portugal.

O Inquérito teve um duplo significado. Como documento, fixou um retrato da construção rural num momento em que ela começava a desaparecer. Como gesto, desmontou a ideia, cara ao Estado Novo, de uma “casa portuguesa” única e nacional: ao revelar a enorme diversidade regional, mostrou que não havia um modelo, mas muitos, cada um filho do seu meio. A reflexão prosseguiria na etnografia, sobretudo na síntese Arquitectura Tradicional Portuguesa de Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, que ordenou estas formas em grandes tipos — a casa-bloco de andar, a casa térrea, a casa urbana.

Um património frágil

Ao contrário do monumento erudito, a arquitetura vernacular raramente goza de proteção legal individual. O seu valor é coletivo e paisagístico: lê-se no conjunto da aldeia, na relação com os campos e os caminhos, na coerência dos materiais. É também por isso um património vulnerável — ao abandono rural, à ruína e a reabilitações que substituem técnicas tradicionais por soluções industriais. Iniciativas de salvaguarda territorial, como as redes de aldeias do interior, procuram travar esse desgaste, reconhecendo que estas casas anónimas guardam, na sua simplicidade, a memória mais profunda do modo de habitar português.

Perguntas frequentes

O que é a arquitetura vernacular?
É a arquitetura construída segundo saberes e técnicas tradicionais de cada lugar, com materiais disponíveis localmente e geralmente sem a intervenção de arquitetos. Em Portugal usa-se frequentemente como sinónimo de arquitetura popular ou tradicional.
Qual a diferença entre arquitetura vernacular e popular?
Os termos são, na prática, usados como equivalentes. 'Vernacular' sublinha a ligação ao 'dialeto' construtivo local; 'popular' acentua a autoria coletiva e anónima; 'tradicional' realça a transmissão hereditária dos saberes. Designam o mesmo universo de construção.
O que foi o Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal?
Foi o levantamento promovido pelo Sindicato Nacional dos Arquitectos entre 1955 e 1961, que dividiu o país em seis zonas e resultou na obra 'Arquitectura Popular em Portugal' (1961), ainda hoje a referência maior sobre o tema.

Fontes

  1. Arquitetura vernacular — Wikipédia
  2. Inquérito à Arquitectura Popular em Portugal — Wikipédia
  3. Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, 'Arquitectura tradicional portuguesa' — Etnográfica Press