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Cascais
Vila de Cascais, no distrito de Lisboa: antiga povoação piscatória e de pescadores que a corte real transformou, a partir de 1870, em estância de veraneio à…
Cascais foi, durante séculos, uma vila de pescadores virada para a foz do Tejo e para o Atlântico aberto. A sua história divide-se em dois tempos muito distintos: o da povoação de mar, defendida por fortes e dependente da pesca, e o da estância de veraneio que a corte real inventou no último quartel do século XIX. É da sobreposição destes dois Cascais que nasce o seu património.
Da povoação de mar à vila
A ocupação humana da zona é antiga, mas a afirmação administrativa de Cascais data de 7 de junho de 1364, quando D. Pedro I a separou do termo de Sintra e a elevou a vila, com jurisdição e juízes próprios. Os homens-bons de Cascais comprometeram-se a pagar à Coroa uma renda anual avultada — sinal da riqueza que a pesca trazia à terra. Em 1514, D. Manuel I outorgou-lhe foral próprio, no quadro da reforma forais do reino.
A posição de Cascais, à entrada da barra do Tejo, deu-lhe um papel militar precoce. A vila viu-se na rota dos ataques vindos do mar e, ao longo da Época Moderna, encheu-se de baterias e redutos que vigiavam a costa. A Cidadela, erguida sobre uma fortificação anterior, e o conjunto de pequenos fortes que pontuam o litoral integram-se na linha defensiva que protegia a aproximação a Lisboa, da qual o vizinho Forte de São Julião da Barra era a peça maior. Cascais é, neste sentido, um excelente lugar para ler no terreno o sistema de fortes costeiros que guardava o estuário.
A corte à beira-mar
A grande viragem chega em 1870, quando D. Luís I, já sem função militar relevante na defesa da costa, manda adaptar a casa do governador da Cidadela a residência real de verão. A decisão muda a fisionomia da vila. Até ao regicídio de 1908 e ao fim da Monarquia, em 1910, a família real passava em Cascais os meses de setembro e outubro, e com ela vinha a corte inteira.
A presença do rei fez de Cascais o primeiro grande destino de vilegiatura do país: onde antes secavam redes, passaram a erguer-se palacetes, chalés e jardins desenhados por uma sociedade que vinha tomar banhos de mar.
Acompanhou-a a elite intelectual — o grupo dos Vencidos da Vida, com Eça de Queirós e Ramalho Ortigão entre os seus nomes — e, sobretudo, uma vaga de construção residencial que transformou a frente atlântica. As quintas de recreio e os palacetes que rodearam a vila inscrevem-na na mesma tradição das quintas de recreio que aristocracia e burguesia espalharam pelos arredores de Lisboa e pela vizinha serra de Sintra.
Património de hoje
O Cascais que se visita guarda as duas camadas em diálogo. A Boca do Inferno, a oeste do centro, é o cenário natural mais célebre, onde o mar trabalha a arriba num abismo rugoso. Ao longo da marginal sucedem-se os museus e fortes reconvertidos — testemunhos de quando defender a barra deixou de ser urgente e o lazer ocupou o seu lugar. A chegada do comboio elétrico, a partir de 1930, consolidou a vocação balnear da «Costa do Sol» e ligou definitivamente a vila à capital.
Curiosamente, Cascais recusou ao longo do tempo a elevação a cidade, preferindo conservar o estatuto de vila — uma opção que diz muito sobre a identidade que escolheu projetar. A poucos quilómetros, Lisboa encontra aqui a sua varanda atlântica: o lugar onde a corte, e depois o país, aprenderam a olhar o mar como paisagem, e não apenas como fronteira a defender.
Perguntas frequentes
- Desde quando Cascais é vila?
- Cascais foi elevada a vila em 7 de junho de 1364, por carta de D. Pedro I, que a separou do termo de Sintra e lhe concedeu jurisdição e juízes próprios.
- Porque ficou Cascais ligada à família real portuguesa?
- Em 1870, D. Luís I adaptou a antiga casa do governador da Cidadela a residência de verão. Até ao final da Monarquia, a corte passava em Cascais os meses de setembro e outubro, atraindo a alta sociedade.
- O que é a Boca do Inferno?
- É uma cavidade aberta pelo mar nas arribas a oeste do centro de Cascais, onde as ondas entram com violência num abismo rochoso. Tornou-se um dos cartões de visita da vila no século XIX.