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Ferro Forjado e Arte do Ferro

A arte do ferro forjado em Portugal: gradeamentos, varandas, portões e ferragens decorativas, da serralharia tradicional ao virtuosismo da Arte Nova.

O ferro forjado é uma das artes mais discretas e, ao mesmo tempo, mais omnipresentes do património construído português. Está nas varandas que rendilham as fachadas urbanas, nos portões que guardam quintas e jardins, nas grades de capelas e de jazigos, nas bandeiras de portas e nas tabuletas de comércio. Trabalhado a quente sobre a bigorna, peça a peça, distingue-se do ferro fundido vazado em moldes precisamente pelo gesto: cada voluta, cada folha, cada espiral nasce da martelagem e traz a marca da mão que a moldou.

Da forja do ferreiro à serralharia artística

A arte do ferro tem raízes antigas no ofício do ferreiro, presença essencial de qualquer aldeia, que forjava ferraduras, alfaias agrícolas e utensílios domésticos. A par dele afirmou-se o serralheiro, especializado em fechaduras, ferragens e elementos arquitetónicos. Foi sobretudo a partir do século XIX, com o crescimento das cidades e o gosto burguês pela casa ornamentada, que a serralharia artística ganhou expressão própria. Multiplicaram-se então os gradeamentos de varandas e janelas, os portões de jardim, os corrimãos, as cancelas e as grades de campa — todo um vocabulário decorativo em ferro que acompanhou a expansão urbana.

Esta produção não foi uniforme. Algumas regiões destacaram-se: Portalegre e o Alto Alentejo tinham forte tradição na forja, e Coimbra chegou a ser conhecida como “a cidade das grades”, pela forma como a serralharia se democratizou e enraizou na cultura artística local. Nas primeiras décadas do século XX, mestres como Manuel Pedro de Jesus e Lourenço Chaves de Almeida elevaram o ofício à categoria de arte plenamente reconhecida.

No ferro forjado, a beleza nasce de uma restrição: ao contrário do ferro fundido, que se repete em série, cada peça batida na bigorna é irrepetível, e nessa imperfeição reside o seu valor artístico.

Linguagens decorativas

Ao longo dos séculos, o ferro acompanhou os estilos da arquitetura e das artes decorativas portuguesas. Na época medieval e moderna predominaram grades robustas, ferrolhos e fechaduras de igreja, de geometria severa. O Barroco trouxe a curva e a contracurva, as folhagens enroladas e as grades de comunhão de desenho exuberante. Mas foi com a Arte Nova, na viragem do século XIX para o XX, que a serralharia atingiu o seu auge expressivo: a linha sinuosa, os motivos florais, as hastes que se torcem como caules deram às varandas e às bandeiras de porta do Porto, de Aveiro e de Lisboa um virtuosismo plástico inconfundível.

A integração do ferro na arquitetura cruzou-se ainda com outras artes da fachada, sobretudo com o azulejo, com o qual partilhou repertórios decorativos — corações, volutas e motivos florais que migravam da cerâmica para o metal e vice-versa. Esta proximidade entre o trabalho do ferreiro e a arquitetura do ferro industrial, feita de estruturas vazadas e perfis laminados, marca a passagem do artesanato à produção mecanizada.

Um ofício entre a tradição e a memória

O ferro forjado situa-se na fronteira entre as artes maiores e os ofícios tradicionais. Não tem a monumentalidade da pedra nem o prestígio da pintura, mas a sua presença é tão constante que define, em boa parte, a fisionomia das ruas e dos pátios portugueses. Edifícios civis de referência — como o Palácio da Bolsa do Porto — conjugam serralharia artística, talha e azulejo num todo cenográfico que ilustra bem o papel do metal trabalhado na grande arquitetura oitocentista.

Hoje, com a generalização do aço soldado e dos perfis industriais, a forja manual tornou-se um saber raro, preservado por um número reduzido de oficinas e ferreiros. Reconhecer e documentar este património — das grandes varandas urbanas às modestas grades de uma casa de aldeia — é também reconhecer o valor de um trabalho do ferro forjado que, durante séculos, deu forma e ritmo às fachadas de Portugal.

Perguntas frequentes

O que é o ferro forjado?
É ferro comercialmente puro, com baixíssimo teor de carbono, trabalhado a quente sobre a bigorna por martelagem. Ao contrário do ferro fundido, vazado em moldes, o forjado é moldado peça a peça pela mão do ferreiro, o que lhe confere o caráter artesanal e único da serralharia artística.
Onde se encontra ferro forjado de qualidade em Portugal?
Em gradeamentos de varandas e janelas de casas burguesas, portões e cancelas de quintas e jardins, grades de capela e jazigos, e nas fachadas urbanas oitocentistas do Porto, Lisboa, Coimbra e Aveiro, onde a serralharia artística e a Arte Nova deixaram alguns dos melhores exemplos.
Qual a diferença entre serralheiro e ferreiro?
Tradicionalmente o ferreiro forjava utensílios, ferraduras e peças agrícolas, enquanto o serralheiro se especializou em fechaduras, ferragens e elementos arquitetónicos como grades e portões. Com a urbanização oitocentista, muitas forjas de ferreiro converteram-se em serralharias.

Fontes

  1. Ferro forjado — Wikipédia
  2. A arte do ferro forjado em Coimbra — A' Cerca de Coimbra
  3. Forja — Wikipédia