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Arte Sacra e Tesouros das Catedrais

Arte sacra em Portugal: ourivesaria, paramentos, relicários e os tesouros das sés e mosteiros, da Custódia de Belém aos museus de arte sacra.

A expressão arte sacra designa o conjunto das obras qualificadas e destinadas ao culto litúrgico — distintas da mais vasta arte religiosa precisamente pela sua função no serviço do altar. Em Portugal, este universo abrange a ourivesaria de prata e ouro, os paramentos e bordados, as alfaias litúrgicas, os relicários e as imagens de devoção, acumulados ao longo de mais de oito séculos de vida cristã centrada nas sés, mosteiros e igrejas. Em conjunto, formam um dos mais ricos repositórios artísticos do país, atravessado por linguagens que vão do românico ao barroco e por mãos de artífices nacionais e estrangeiros.

Ourivesaria e alfaias litúrgicas

O núcleo mais valioso destes acervos é, em regra, a ourivesaria sagrada: cálices, patenas, custódias, cruzes processionais, turíbulos e píxides, trabalhados em prata e, nas peças de exceção, em ouro esmaltado. A função determina a forma — guardar e mostrar a hóstia consagrada, conter as relíquias, conduzir o incenso —, mas cada época imprimiu o seu estilo, e por isso a ourivesaria portuguesa constitui quase uma história paralela do gosto e da técnica.

A obra-prima do género é a Custódia de Belém, encomendada por D. Manuel I para o Mosteiro de Santa Maria de Belém e atribuída ao ourives e dramaturgo Gil Vicente, concluída em 1506. Foi executada com cerca de sete quilos de ouro do tributo do Régulo de Quíloa, na costa oriental africana, trazido por Vasco da Gama no regresso da segunda viagem à Índia. Concebida como uma micro-arquitetura tardo-gótica, apresenta os doze apóstolos ajoelhados, a pomba do Espírito Santo em ouro esmaltado branco e, no topo, Deus Pai sustentando o globo do Universo — uma síntese material da Santíssima Trindade. Conserva-se hoje no Museu Nacional de Arte Antiga, na sua coleção de referência da arte sacra nacional.

Numa custódia ou num relicário, a matéria preciosa nunca é fim em si: o ouro e a prata existem para tornar visível o invisível, oferecendo aos fiéis um objeto de contemplação.

Paramentos, relicários e os tesouros das sés

A par da ourivesaria, os tesouros incluem os paramentos — casulas, capas de asperges, dalmáticas e frontais de altar — em sedas, veludos e bordados a ouro, que documentam a história do têxtil litúrgico e das oficinas de bordadores. Os relicários, por sua vez, guardam fragmentos venerados, da relíquia de um santo à cruz processional, e materializam a devoção em ourivesaria, marfim e pedraria.

Estes conjuntos formavam-se nas catedrais ao longo de séculos e, a partir do final do século XIX, começaram a ser musealizados. O Museu da Sé de Coimbra, aberto em 1884, foi o primeiro museu de arte sacra do país e está hoje integrado no Museu Nacional Machado de Castro, que reúne ourivesaria do século XII ao XVIII, incluindo o cálice de D. Gueda Mendes e o tesouro da Rainha Santa Isabel. O Tesouro-Museu da Sé de Braga, criado em 1930, preserva o cálice e a patena de S. Geraldo, do século XI, e um cofre islâmico em marfim de inícios do século XI.

Um património vivo

Ao contrário de muitas coleções de museu, a arte sacra mantém frequentemente a sua função: peças que continuam a sair em procissão ou a servir na liturgia, ligando o objeto ao gesto para que foi criado. A sua salvaguarda cruza-se assim com a vida das comunidades e com a tutela do património religioso, e insere-se no campo mais alargado das artes decorativas portuguesas, onde a ourivesaria, o têxtil e a talha dourada partilham técnicas e oficinas. Estudar estes tesouros é seguir, peça a peça, oito séculos de fé, poder e mestria artística.

Perguntas frequentes

O que distingue a arte sacra da arte religiosa?
A arte sacra é a que se destina ao culto litúrgico e ao serviço do altar; a arte religiosa, mais ampla, abrange qualquer obra de tema cristão, mesmo sem função celebrativa.
Qual é a peça mais célebre da ourivesaria sacra portuguesa?
A Custódia de Belém, encomendada por D. Manuel I para os Jerónimos e atribuída a Gil Vicente, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa.
Onde se podem ver os tesouros das catedrais portuguesas?
Em museus de arte sacra ligados às sés, como o Tesouro-Museu da Sé de Braga, ou em museus nacionais como o Machado de Castro, em Coimbra.

Fontes

  1. Arte sacra – Wikipédia
  2. Custódia de Belém – Museu Nacional de Arte Antiga
  3. O Tesouro-Museu da Sé de Braga