Tipologias
Fontes e Chafarizes
Fontes, chafarizes e fontanários de Portugal: a tipologia do património hidráulico que durante séculos abasteceu de água potável aldeias, vilas e cidades.
Durante séculos, ir buscar água foi um gesto quotidiano que organizava a vida das povoações portuguesas. Antes das canalizações domiciliárias, a água potável chegava à população num ponto fixo e público — a fonte, o chafariz ou o fontanário — em torno do qual se faziam filas, se trocavam notícias e se cumpriam rotinas. Mais do que infraestrutura, estas construções foram durante muito tempo o verdadeiro centro social das ruas e dos largos.
A própria palavra chafariz guarda essa antiguidade. Deriva do árabe vulgar çahrij, chegado ao português através do árabe hispânico sahríǧ, com o sentido de cisterna ou reservatório. Só com o tempo é que o termo deslizou do depósito de água para a fonte ornamental que a distribuía — sinal de quão profundamente a herança islâmica marcou a cultura da água na Península.
Fonte, chafariz e fontanário
Embora se usem muitas vezes como sinónimos, os três termos correspondem a realidades distintas. A fonte é o conceito mais amplo: pode designar a simples nascente captada ou uma estrutura modesta. O chafariz é a forma mais monumental — ponto terminal de uma conduta de abastecimento, normalmente dotado de várias bicas e de tanques escalonados que separavam a água destinada às pessoas da que servia para abeberar os animais e lavar a roupa. O fontanário, por seu lado, designa em regra a versão funcional e despojada que proliferou nas aldeias e, mais tarde, nos bairros urbanos do século XIX e início do XX.
O chafariz era a face visível de uma engenharia invisível: por detrás das suas bicas corria, muitas vezes, quilómetros de condutas e galerias que traziam a água por gravidade desde nascentes distantes.
Uma engenharia ligada aos aqueductos
As grandes fontes urbanas raramente existiam isoladas. Constituíam o remate público de sistemas hidráulicos completos que, na Antiguidade e na Idade Moderna, dependiam dos aquedutos para conduzir a água por gravidade ao longo de grandes distâncias. Em Lisboa, a construção do Aqueduto das Águas Livres, no século XVIII, multiplicou os chafarizes da cidade, que passaram a ser abastecidos a partir do reservatório central da Mãe d’Água. A fonte era, assim, o ponto onde uma obra de engenharia de escala territorial se tornava, finalmente, acessível ao gesto de quem enchia o cântaro.
O exemplar mais célebre de Lisboa é o Chafariz d’El-Rei, em Alfama, tido como o mais antigo da cidade. As suas águas já eram aproveitadas no século XIII, nos reinados de D. Afonso III e D. Dinis, e durante a época dos Descobrimentos foi nele que as naus rumo à Índia se reabasteciam de água potável antes de partir.
Da pedra lavrada à memória das aldeias
A evolução das fontes acompanhou a história da arquitetura portuguesa. Do gótico ao manuelino, do maneirismo ao barroco, os chafarizes foram-se cobrindo de armas reais, esferas armilares, mascarões e bicas em forma de cabeças de animais. No Norte, oficinas de mestres canteiros — como a de João Lopes, o Velho, ativa em Ponte de Lima e no Porto a partir da década de 1540 — difundiram o gosto renascentista através destas obras, fazendo da fonte um suporte privilegiado da escultura decorativa em pedra.
A partir do final do século XIX, com a chegada das redes domiciliárias e, depois, do automóvel, muitas destas estruturas tornaram-se desnecessárias e foram desmontadas ou deslocadas. As que sobreviveram, frequentemente classificadas e protegidas, continuam a marcar largos e adros por todo o país. Tal como os moinhos de água e azenhas ou os pelourinhos, as fontes e chafarizes pertencem a uma tipologia do património civil que, sem ostentação, conta a história das comunidades — a de uma necessidade tão elementar como a água, resolvida com engenho, pedra e arte.
Perguntas frequentes
- Qual é a diferença entre fonte, chafariz e fontanário?
- Os três termos designam construções de abastecimento público de água, mas com nuances. A fonte é o conceito mais lato e pode ser apenas uma nascente captada. O chafariz é uma estrutura monumental, ponto terminal de uma conduta, geralmente com várias bicas e tanques a níveis diferentes para separar a água das pessoas e a dos animais. O fontanário é, em regra, uma versão mais modesta e funcional, frequente nas aldeias e nos bairros.
- De onde vem a palavra chafariz?
- Vem do árabe vulgar çahrij (por intermédio do árabe hispânico sahríǧ), que significava cisterna ou reservatório. O termo entrou no português durante a presença islâmica na Península e só mais tarde passou a designar as fontes ornamentais que distribuíam a água nas povoações.
- Qual é o chafariz mais antigo de Lisboa?
- Considera-se que o Chafariz d'El-Rei, em Alfama, é o mais antigo da cidade. As suas águas, captadas nas encostas de Alfama, já eram aproveitadas no século XIII, durante os reinados de D. Afonso III e D. Dinis, e abasteceram durante séculos as naus que partiam para a Índia.