Arqueologia

Ruínas Romanas do Cerro da Vila

Ruínas Romanas do Cerro da Vila, villa e estação portuária romana em Vilamoura (Quarteira, Loulé), com termas, tanques de salga de peixe e museu de sítio.

Ruínas Romanas do Cerro da Vila
Beechgrove, CC BY 3.0 — Wikimedia Commons

As Ruínas Romanas do Cerro da Vila constituem um dos mais ricos sítios arqueológicos do litoral algarvio, implantadas junto à atual marina de Vilamoura, na freguesia de Quarteira, concelho de Loulé. Ao contrário das villae puramente agrícolas do interior, o Cerro da Vila desenvolveu-se como um aglomerado portuário e industrial à beira-mar, articulando a produção rural com o comércio marítimo de longa distância. O conjunto integrava o território de Ossonoba (a atual Faro), capital do extremo sul da Lusitânia, e prosperou graças à sua ligação privilegiada com as rotas do Mediterrâneo.

Uma estação marítima entre o campo e o mar

O sítio organizava-se em torno de duas grandes residências, a principal das quais voltada para a antiga linha de água que servia de porto. Nelas reconhecem-se ainda fragmentos de pavimentos de mosaico policromo, frisos de mármore e estuques pintados, testemunhos do conforto e do gosto dos seus proprietários. Um balneário com átrio e tanques completava o núcleo residencial, traduzindo a adoção plena dos hábitos urbanos romanos numa propriedade rústica.

A verdadeira singularidade do Cerro da Vila reside, contudo, na sua vocação produtiva. Junto às residências instalaram-se tanques de salga de peixe, onde se preparavam conservas e, sobretudo, o célebre garum — um molho fermentado de peixe muito apreciado em todo o Império e exportado como condimento de luxo. Esta indústria, associada às pescarias da costa, fazia do sítio um elo na vasta cadeia económica que ligava o sul da Hispânia a Roma.

A presença de um porto fluvial ou de esteiro, hoje assoreado, recorda que a geografia do litoral algarvio era bem diferente na Antiguidade: o mar e a ria entravam terra adentro, transformando o Cerro da Vila numa autêntica plataforma de embarque.

Da villa romana à ocupação islâmica

A ocupação do local foi notavelmente longa. Os primeiros vestígios romanos remontam à viragem da era, mas o auge da estação situa-se entre os séculos I e IV d.C. Após o fim do domínio romano, o sítio não foi abandonado: conhece uma fase visigótica e, mais tarde, uma presença islâmica documentada por um conjunto de silos e por materiais cerâmicos dos séculos VIII a XI. Esta continuidade faz do Cerro da Vila um observatório privilegiado das transformações que atravessaram o Algarve ao longo de mais de um milénio.

A necrópole associada ao sítio incluía monumentos funerários de aparato, entre os quais um mausoléu de planta quadrangular, interpretado como torre funerária ou columbarium, cujas fundações ainda se conservam. Estes vestígios funerários, a par das estruturas residenciais e industriais, oferecem uma leitura rara da vida, da economia e da morte numa comunidade costeira romana.

Descoberta, museu e enquadramento

O sítio foi identificado em 1963 pelo arqueólogo José Farrajota, que reconheceu de imediato a importância dos vestígios que afloravam nos terrenos onde viria a nascer o resort de Vilamoura. As campanhas de escavação que se seguiram revelaram a complexidade do aglomerado e levaram à criação de uma estação arqueológica e de um museu de sítio, onde se expõem mosaicos, moedas, cerâmicas, vidros e elementos arquitetónicos recuperados ao longo das décadas.

O Cerro da Vila dialoga com outros grandes testemunhos da romanização do Algarve, como a villa romana de Milreu, em Estoi, célebre pelos seus mosaicos e pelo templo posteriormente cristianizado. Em conjunto, ambos os sítios enriquecem a leitura mais ampla do Portugal romano e da sua arqueologia e da arqueologia romana no território nacional. A visita integra-se ainda no percurso patrimonial do concelho de Loulé e na descoberta do Algarve para além das suas praias.

Perguntas frequentes

Onde ficam as Ruínas Romanas do Cerro da Vila?
Situam-se em Vilamoura, na freguesia de Quarteira, concelho de Loulé, distrito de Faro, junto à marina, no litoral central do Algarve.
O que se pode visitar no Cerro da Vila?
Conservam-se vestígios de duas residências, um balneário (termas), tanques de salga de peixe, estruturas portuárias e uma necrópole com mausoléu, além de um museu de sítio com os achados das escavações.
De que época são as ruínas do Cerro da Vila?
A ocupação principal data dos séculos I a IV d.C., mas o sítio teve ocupação quase ininterrupta, com fases visigótica e islâmica que se prolongaram até cerca do século XI.

Fontes

  1. Cerro da Vila — Wikipédia
  2. Roman ruins of Cerro da Vila — Wikipedia
  3. Ruínas do Cerro da Vila — Estação Arqueológica — Visit Loulé