Arqueologia
Arqueologia romana de Portugal
Arqueologia romana de Portugal: cidades, villae, vias e minas da Lusitânia e da Gallaecia, de Bracara Augusta a Conímbriga e ao Algarve.
A presença romana no território que viria a ser Portugal estendeu-se por mais de seis séculos, desde as primeiras campanhas militares no século II a.C. até à desagregação do poder imperial no século V d.C. Esse longo período deixou um registo arqueológico denso e variado — cidades, casas senhoriais rurais, redes viárias, complexos mineiros, necrópoles e milhares de inscrições — que constitui um dos capítulos fundamentais da arqueologia romana na Península Ibérica.
Da conquista à organização provincial
A romanização do Ocidente peninsular foi um processo demorado, marcado pela resistência das populações indígenas, de que as chamadas guerras lusitanas, lideradas por Viriato em meados do século II a.C., são o episódio mais célebre. Só com a campanha de Augusto se estabilizou o domínio e se procedeu à organização administrativa do território.
O grosso do atual Portugal, a sul do rio Douro, integrou-se na província da Lusitânia, cuja capital era Augusta Emerita (a atual Mérida, em Espanha). A província dividia-se em três circunscrições judiciais, os conventus: o Emeritensis, o Pacensis (com centro em Pax Iulia, Beja) e o Scallabitanus (com centro em Scallabis, Santarém). O Noroeste, a norte do Douro, ficou ligado ao conventus bracarense e foi mais tarde autonomizado na província da Gallaecia, articulada em torno de Bracara Augusta, a atual Braga.
Segundo Plínio-o-Velho, a Lusitânia contava com cinco colónias, um município de cidadãos romanos — Felicitas Iulia Olisipo, a futura Lisboa — e dezenas de comunidades tributárias, um retrato da hierarquia urbana que estruturou o território.
Cidades, villae e o mundo rural
As cidades romanas foram o motor da nova ordem. Conímbriga, junto a Condeixa-a-Nova, é a estação mais bem conhecida do país: conserva fórum, termas, casas com pátios e mosaicos, uma muralha erguida às pressas no século III e troços da via para Bracara Augusta. A elas juntam-se núcleos como Ebora (Évora), Ammaia, Miróbriga ou a Egitânia (Idanha-a-Velha), cada um com o seu programa monumental de templos, fóruns e equipamentos de água.
No campo, a paisagem foi marcada pelas villae, explorações agrícolas que articulavam uma residência senhorial, por vezes luxuosa, com instalações produtivas. A villa romana de Pisões, perto de Beja, ocupada entre os séculos I e IV d.C. e descoberta por acaso em 1967, organiza-se em torno de um peristilo e destaca-se pela riqueza dos seus mosaicos e termas. Outros conjuntos de referência são Milreu, em Estoi, no Algarve, com o seu templo dedicado ao culto das águas; São Cucufate, no Alentejo; e Torre de Palma, junto a Monforte, uma das maiores villae conhecidas na Península.
Vias, minas e o legado material
A coesão deste mundo provincial assentava nas vias romanas, eixos como a estrada de Olisipo a Bracara Augusta ou as que serviam o interior beirão e transmontano, ainda hoje legíveis em troços calcetados, pontes e marcos miliários. Em paralelo, a economia imperial explorou intensamente os recursos do subsolo: as minas de ouro de Tresminas, no Norte, e o complexo de cobre de Vipasca, em Aljustrel — célebre pelas tábuas de bronze com a legislação mineira — testemunham uma organização técnica e jurídica notável.
O conjunto destes vestígios não interessa apenas à investigação académica: alimenta a museologia, o ordenamento do território e a identidade dos lugares. Compreender a arquitetura romana em Portugal, das técnicas construtivas aos programas decorativos, é indispensável para ler a longa duração do património edificado nacional, em que muitos templos, igrejas e castelos medievais reaproveitaram pedra, traçados e memórias da Antiguidade.
Perguntas frequentes
- A que províncias romanas pertencia o atual território português?
- O território a sul do Douro integrava a província da Lusitânia, com capital em Augusta Emerita (Mérida). O Noroeste, a norte do Douro, foi mais tarde organizado na província da Gallaecia, com centro em Bracara Augusta (Braga).
- Qual é a estação arqueológica romana mais bem estudada de Portugal?
- Conímbriga, junto a Condeixa-a-Nova, é o sítio romano mais escavado e mais bem conhecido do país, com fórum, termas, casas com mosaicos, muralha tardia e um troço da via que ligava Olisipo a Bracara Augusta.
- O que era uma villa romana?
- Era uma exploração agrícola senhorial que combinava a parte residencial (pars urbana), muitas vezes com mosaicos e termas, e a parte produtiva (pars rustica). Pisões, Milreu, São Cucufate e Torre de Palma são exemplos notáveis em território português.