Tipologias

Tribunais e Antigas Cadeias

Tribunais, casas da câmara e antigas cadeias em Portugal: a arquitetura do poder judicial e municipal, da casa da câmara e cadeia aos Palácios da Justiça.

Sob a designação de tribunais e antigas cadeias agrupa-se um conjunto de edifícios que materializam, na pedra, duas das funções mais antigas e visíveis do poder público português: julgar e punir. Durante séculos, estas funções não tiveram casa própria nem arquitetura autónoma — partilhavam o mesmo edifício que o governo municipal, num arranjo que só a contemporaneidade viria a desfazer. Acompanhar esta tipologia é, por isso, seguir a lenta separação entre administração, justiça e prisão, e a forma como cada uma delas acabou por reclamar a sua própria linguagem construída.

A casa da câmara e cadeia

Até ao início do século XX, os paços do concelho reuniam habitualmente, num só edifício, a câmara municipal, a administração do concelho, o tribunal, o registo civil e a cadeia. A fórmula corrente — casa da câmara e cadeia — diz tudo: no piso nobre, a sala das audiências e das vereações, com janelas voltadas para a praça; no piso térreo ou na cave, a prisão, com pequenos vãos gradeados ao nível da rua. O edifício abria-se com frequência por uma galeria ou arcada, sob a qual se realizavam feiras e atos públicos, e erguia-se quase sempre junto ao pelourinho, o outro grande símbolo da jurisdição concelhia.

Numa só fachada concentravam-se o lugar onde se decidia, o lugar onde se julgava e o lugar onde se cumpria pena: a arquitetura tornava visível a unidade do poder local.

Esta associação física entre poder municipal e prisão explica a sobriedade da maioria destes edifícios. Construídos em cantaria regional — granito a norte, calcário e cal a sul —, seguem em grande parte a contenção da arquitetura chã maneirista e, mais tarde, recebem fachadas de gosto barroco, coroadas por sineta, brasão régio e relógio. O modelo é tão estável que, da Beira ao Alentejo, se reconhece de imediato o mesmo programa repetido com pequenas variações.

Da Relação à arquitetura prisional

A grande exceção a esta escala modesta são os edifícios das Relações, os tribunais superiores do reino. O caso mais eloquente é a Cadeia e Tribunal da Relação do Porto. O tribunal fora criado em 1581 e funcionava inicialmente junto à Sé; um primeiro edifício próprio, mandado erguer no Campo do Olival, ruiu em 1752. A construção atual iniciou-se em 1766, segundo projeto de Eugénio dos Santos e Carvalho, e a primeira sessão solene realizou-se em 1797.

O edifício é hoje um dos mais raros testemunhos de arquitetura prisional setecentista em Portugal. Conjugava num mesmo corpo o tribunal e a cadeia, com celas, enfermaria e capela, e manteve-se em uso como prisão até 1974 — quase dois séculos de funcionamento contínuo. Após obras de reabilitação dirigidas por Eduardo Souto de Moura e Humberto Vieira, acolhe desde 2000 o Centro Português de Fotografia, no coração do centro histórico do Porto. A sua conservação permite ler, na própria distribuição do espaço, a lógica de uma justiça que vigiava e castigava à vista da cidade.

Os Palácios da Justiça do Estado Novo

A autonomia arquitetónica do tribunal só se consolida no século XX. A partir dos anos 1940, o Estado Novo lançou um vasto programa de construção de Palácios da Justiça, destinado a dotar cada comarca de um edifício próprio e a afirmar a presença do Estado no território. Coube ao arquiteto Raúl Rodrigues Lima desenhar o arquétipo: planta organizada segundo um “programa de serviços internos” rigoroso, fachada monumental e pórtico de colunas, num classicismo austero próximo da arquitetura oficial do regime.

Esse modelo, replicado em dezenas de cidades — de Bragança a Almada, da Guarda a Aveiro —, retirou definitivamente o tribunal do edifício camarário e fez dele uma peça de cenografia política, em que a escalinata, o pórtico e a estátua da Justiça encenavam a solenidade do julgamento. Ao mesmo tempo, a prisão separava-se da justiça e da câmara, dando origem a estabelecimentos prisionais autónomos. Encerra-se assim um percurso de séculos: aquilo que começara reunido numa única fachada de praça acabou repartido por três arquiteturas distintas, cada uma com a sua linguagem e o seu lugar na cidade.

Perguntas frequentes

O que era uma casa da câmara e cadeia?
Era o edifício que, na generalidade das vilas portuguesas até ao início do século XX, reunia num mesmo corpo o governo municipal, a sala de audiências e o tribunal, o cartório e, no piso inferior, a cadeia. Administração, justiça e prisão partilhavam frequentemente a mesma fachada, voltada para a praça principal.
Onde se conserva a mais notável cadeia setecentista portuguesa?
Na antiga Cadeia e Tribunal da Relação do Porto, erguida a partir de 1766 sobre projeto de Eugénio dos Santos e Carvalho. Funcionou como prisão até 1974 e alberga hoje o Centro Português de Fotografia, sendo um raro exemplar conservado de arquitetura prisional do século XVIII.
Porque existem tantos Palácios da Justiça idênticos em Portugal?
Resultam de um programa de obras públicas do Estado Novo, lançado sobretudo a partir dos anos 1940. O arquiteto Raúl Rodrigues Lima fixou um modelo de palácio de justiça — fachada monumental, pórtico colunado e classicismo austero — que foi replicado em dezenas de cidades de norte a sul do país.

Fontes

  1. Paços do Concelho — Wikipédia
  2. Tribunal e Cadeia da Relação — Museu Virtual do Tribunal da Relação do Porto
  3. Raúl Rodrigues Lima e os Palácios da Justiça do Estado Novo (Universidade do Minho)