Períodos & Estilos

Arquitetura e Arte do Estado Novo

A arquitetura e arte oficial do Estado Novo (1933-1974) em Portugal: da Exposição do Mundo Português ao Português Suave e ao modernismo tardio.

A arquitetura e a arte produzidas sob o Estado Novo (1933-1974) constituem um dos capítulos mais densos e contraditórios da cultura portuguesa do século XX. Longe de se reduzirem a um único estilo, exprimem a tensão permanente entre o impulso moderno que vinha das vanguardas europeias e a vontade política de fabricar uma imagem nacional, enraizada na história e na propaganda. Compreender este período é compreender como um regime autoritário usou a pedra, o betão e a estátua para se representar a si mesmo.

Da modernidade à reportuguesação

Nos primeiros anos do regime, a encomenda pública conviveu com uma arquitetura de feição modernista e Art Déco, marcada por volumes depurados e geometria firme. Arquitetos como Cassiano Branco, Luís Cristino da Silva, Carlos Ramos, Jorge Segurado e Porfírio Pardal Monteiro ensaiaram uma linguagem internacional aplicada a liceus, hospitais, igrejas e edifícios institucionais. Esta fase aproxima-se do movimento moderno que então se afirmava no país, embora quase sempre sujeita à monumentalidade que o Estado exigia das suas obras.

A partir de meados da década de 1930, e sob a orientação cultural de António Ferro à frente do Secretariado de Propaganda Nacional, instalou-se uma deliberada “reportuguesação” do gosto. Procurava-se um equilíbrio estético que recuperasse, estilizadas, as formas do passado nacional — uma inflexão que viria a cristalizar no chamado estilo Português Suave.

O regime não inventou um estilo a partir do nada: revestiu a engenharia moderna do betão com a memória decorativa de uma arquitetura idealizada como “portuguesa”.

A Exposição do Mundo Português

O ponto de viragem simbólico foi a Exposição do Mundo Português, inaugurada em Belém a 23 de junho de 1940, no contexto das comemorações dos centenários da Fundação (1140) e da Restauração (1640). Dirigida pelo arquiteto José Ângelo Cottinelli Telmo, ocupou a frente ribeirinha de Belém com pavilhões de carácter efémero, estatuária e cenografia de grande escala, visitados por cerca de três milhões de pessoas em plena Segunda Guerra Mundial.

As suas linhas — sólidas, utilitárias e despojadas, mas carregadas de retórica histórica — tornaram-se omnipresentes na arquitetura oficial das décadas seguintes. Foi também aqui que se ergueu, em materiais perecíveis, a primeira versão do Padrão dos Descobrimentos, mais tarde reconstruído em betão e pedra e inaugurado em 1960, com escultura de Leopoldo de Almeida, no quinto centenário da morte do Infante D. Henrique.

O Português Suave e o modernismo tardio

Entre os anos 1940 e 1950, o Português Suave generalizou-se em câmaras municipais, tribunais, escolas dos centenários, agências dos CTT e da Caixa Geral de Depósitos. Os telhados de quatro águas, os cunhais aparelhados, os portais em cantaria e a simetria solene davam dignidade nacional a programas que, por dentro, eram já francamente modernos. Esta procura de uma identidade construída dialoga, de forma distante, com a sobriedade da tradicional arquitetura chã dos séculos XVI e XVII.

A hegemonia do gosto oficial não foi pacífica. O I Congresso Nacional de Arquitectura, em 1948, deu voz a uma geração que reclamava a liberdade da linguagem moderna internacional, abrindo caminho a uma produção mais experimental nas décadas finais do regime. Essa rutura prolonga-se na arquitetura contemporânea portuguesa do pós-25 de Abril. A par da arquitetura, a escultura pública portuguesa do período — comemorativa, heroica e ao serviço da memória dos Descobrimentos — completa um programa visual coerente, em que arte e poder se confundiram durante mais de quarenta anos.

Perguntas frequentes

O que foi o estilo Português Suave?
Foi a linguagem arquitetónica nacionalista promovida pelo Estado Novo, sobretudo entre as décadas de 1940 e 1950, que revestia estruturas modernas de betão com elementos decorativos historicistas e tradicionalistas, como telhados de quatro águas, cunhais e portais em pedra.
Qual foi o papel da Exposição do Mundo Português de 1940?
Inaugurada em Belém a 23 de junho de 1940 e dirigida pelo arquiteto Cottinelli Telmo, a exposição consagrou uma estética monumental e nacionalista ao serviço da propaganda do regime, tornando-se uma referência fundadora da arquitetura oficial do Estado Novo.
Houve arquitetura moderna durante o Estado Novo?
Sim. Nos anos 1930 surgiram obras de feição modernista e Art Déco de arquitetos como Cassiano Branco, Cristino da Silva ou Pardal Monteiro, e a partir do Congresso Nacional de Arquitectura de 1948 o modernismo internacional reafirmou-se, em tensão com o gosto oficial.

Fontes

  1. Estilo Português Suave — Wikipédia
  2. Exposição do Mundo Português — Wikipédia
  3. Padrão dos Descobrimentos — Wikipédia