Períodos & Estilos
Arte Asturiana e Pré-Românica
A arte pré-românica peninsular — asturiana, visigótica e moçárabe — entre os séculos VII e X e os seus raros vestígios no território português.
Entre a queda do reino visigótico, em 711, e a afirmação plena do românico, no século XI, a Península Ibérica conheceu um conjunto de linguagens artísticas frequentemente reunidas sob o termo pré-românico. Não se trata de um estilo único, mas de várias tradições que se cruzaram num território fragmentado entre o domínio islâmico do al-Andalus e os núcleos cristãos do Norte. A arte asturiana é a expressão mais coerente e ambiciosa deste período, mas o quadro completo inclui também a herança visigótica e a produção moçárabe.
O Reino das Astúrias e a sua arte
Nascido da resistência cristã nas montanhas cantábricas, o Reino das Astúrias permaneceu, desde finais do século VIII até inícios do X, o único reduto peninsular livre do poder muçulmano. Em torno da corte de Oviedo desenvolveu-se uma arquitectura de notável maturidade técnica, de inspiração carolíngia mais do que lombarda, assente no arco de volta perfeita, em robustos contrafortes e em sistemas de cobertura abobadados.
O período pré-ramirense, ligado a Afonso II, o Casto (791–842), legou edifícios como a basílica de San Julián de los Prados. O ciclo ramirense, embora breve, é o mais original: Ramiro I (842–850) mandou erguer Santa María del Naranco — não uma capela, como muito tempo se julgou, mas a sua aula régia — e San Miguel de Lillo, obras de verticalidade e decoração esculpida sem paralelo. Este conjunto, classificado pela UNESCO como Património Mundial em 1985 e ampliado em 1998, marca o apogeu de uma estética que prepararia, sem o saber, a viragem para o românico.
O pré-românico asturiano demonstra que, mesmo num reino periférico e ameaçado, a ambição monumental podia sobreviver — e que a continuidade com a tradição cristã antiga foi tão decisiva quanto qualquer rutura.
A herança visigótica e moçárabe
A arte asturiana não surgiu do nada: bebeu da tradição construtiva dos visigodos, senhores da Península entre o século V e 711. Dessa matriz sobrevivem, em território português, alguns dos raros testemunhos da arte visigótica em Portugal, em diálogo próximo com a arte suévica do antigo reino de Braga.
Paralelamente, nas comunidades cristãs que viviam sob domínio islâmico floresceu a arte moçárabe, que combinou plantas e estruturas de raiz visigótica com soluções de inspiração andalusina, como o arco em ferradura. Estas correntes — asturiana, visigótica e moçárabe — partilham horizontes cronológicos e influências cruzadas, e por isso são tratadas em conjunto na cronologia dos períodos e estilos da arte peninsular.
Os vestígios em território português
Em Portugal, a arte pré-românica conservou-se de forma fragmentária, mas significativa. Em Braga, a Capela de São Frutuoso de Montélios, mandada erguer pelo bispo São Frutuoso na segunda metade do século VII, apresenta uma planta centralizada em cruz grega, com quatro absides articuladas em torno de um cruzeiro — um dos mais antigos e mais puros exemplos de matriz suevo-visigótica da Península, ainda que reconstruída no século X.
A norte, a Capela de São Pedro de Balsemão, em Lamego, conserva três naves separadas por arcos semiferradura sobre capitéis coríntios romanos reaproveitados, num edifício de cronologia debatida entre o período visigótico e a expansão asturiana. Mais a sul, em Oliveira do Hospital, a Igreja de São Pedro de Lourosa, datada de 912 por uma lápide, é o único templo de filiação moçárabe subsistente em Portugal, com três naves divididas por arcos em ferradura e cabeceira tripartida.
Estes monumentos formam a ponte entre o mundo tardo-antigo e a chegada da arquitectura românica em Portugal, que a partir do século XI imporia uma linguagem nova e europeia, encerrando definitivamente o ciclo pré-românico peninsular.
Perguntas frequentes
- O que é a arte asturiana?
- É a arte produzida no Reino das Astúrias entre finais do século VIII e inícios do X, o único reduto cristão peninsular livre do domínio islâmico. Distingue-se pela sua arquitectura abobadada, pelo uso do arco de volta perfeita e por uma forte influência carolíngia.
- Existe arte pré-românica em Portugal?
- Sim, embora rara. Os exemplos mais notáveis são a Capela de São Frutuoso de Montélios (Braga), a Igreja de São Pedro de Lourosa (Oliveira do Hospital) e a Capela de São Pedro de Balsemão (Lamego), de matriz visigótica e moçárabe.
- Qual a diferença entre arte pré-românica e românica?
- A arte pré-românica abrange as expressões cristãs anteriores ao românico (séculos VII–X): visigótica, asturiana e moçárabe. O românico, plenamente desenvolvido a partir do século XI, traz uma linguagem unificada e a integração das vias europeias de peregrinação.