Períodos & Estilos

Arte e Arquitetura Visigótica em Portugal

Arte e arquitetura visigótica em Portugal: igrejas e escultura dos séculos V a VIII, de São Frutuoso de Montélios a São Gião e ao espólio de Beja.

A arte visigótica em Portugal abrange a produção artística do período compreendido, em traços largos, entre o início do século V e o ano de 711, quando a conquista islâmica pôs termo ao reino visigodo de Toledo. Trata-se de uma arte essencialmente hispano-cristã, na qual o contributo propriamente germânico foi modesto: a sua matriz vem da tradição romana provincial, depurada por correntes paleocristãs e enriquecida por influências bizantinas, norte-africanas e orientais. Mais do que uma rutura, representa uma das fases de transição entre a Antiguidade tardia e a Alta Idade Média, na qual as oficinas locais foram ganhando uma linguagem própria.

Da Antiguidade tardia à autonomia regional

No território que hoje é Portugal, a herança romana manteve-se viva durante toda a época sueva e visigótica. As cidades episcopais — Braga, Idanha-a-Velha, Beja, Évora, Mértola — concentraram a encomenda artística, ligada sobretudo à liturgia cristã e à afirmação institucional da Igreja. Reaproveitaram-se materiais romanos em novas construções e, a partir do século V, a escultura decorativa foi-se distanciando dos modelos clássicos para adotar repertórios geométricos e vegetalistas tratados em baixo e alto-relevo, com fortes contrastes de luz e sombra. Esta produção dialoga, no plano peninsular, com a tradição que precede a arte asturiana e o restante pré-românico cristão e que, após 711, daria lugar às soluções da arte moçárabe e da arte islâmica.

A originalidade visigótica não está na invenção de formas inéditas, mas na recombinação de heranças — romana, bizantina e oriental — numa síntese ibérica reconhecível, sobretudo na escultura arquitetónica.

Os monumentos sobreviventes

O conjunto edificado que chegou até nós é escasso, mas de qualidade excecional. A Capela de São Frutuoso de Montélios, em Braga, é o exemplo mais célebre. Mandada erguer no século VII pelo bispo Frutuoso de Braga como seu mausoléu, junto ao mosteiro de São Salvador, apresenta uma planta centralizada em cruz grega, com quatro braços absidados articulados em torno de um cruzeiro quadrangular — solução que tem sido aproximada do mausoléu de Gala Placídia, em Ravena. Classificada como Monumento Nacional desde 1944, a sua datação foi longamente debatida entre teses visigótica e moçárabe.

A sul, a Igreja de São Gião, perto da Nazaré e redescoberta em 1961, conta-se entre os templos cristãos mais antigos do território. De nave única, ábside retangular abobadada e iconóstase com arcos ultrapassados, tanto pode ser lida como criação visigótica do século VII como, para alguns autores, obra já de feição moçárabe. A Catedral de Idanha-a-Velha, basílica de três naves erguida com materiais romanos reaproveitados, conserva igualmente um batistério cruciforme entre os mais antigos da Península.

A escultura e o espólio de Beja

Mais do que pela arquitetura conservada, a arte visigótica em Portugal conhece-se hoje pela abundante escultura decorativa: capitéis, impostas, frisos, cancelos e pilastras ornados com círculos, rosetas, estrelas e motivos de inspiração têxtil oriental. A maior parte destas peças sobreviveu fora do seu contexto original, integrada em construções posteriores ou recolhida em museus. O conjunto mais importante guarda-se no Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja, instalado na Igreja de Santo Amaro, com obras dos séculos V a VIII que documentam a transição do gosto romano para o visigótico — razão por que Beja é frequentemente designada capital portuguesa da arte visigótica.

Para compreender este período no quadro mais amplo da evolução das formas em território nacional, é útil situá-lo entre as etapas estudadas em períodos e estilos do património português e o conhecimento material reunido pela arqueologia em Portugal, disciplina a que se deve grande parte da identificação e datação dos vestígios visigóticos.

Perguntas frequentes

Qual é o monumento visigótico mais emblemático de Portugal?
A Capela de São Frutuoso de Montélios, em Braga, mandada erguer no século VII como túmulo do bispo Frutuoso. De planta em cruz grega e ábsides articuladas em torno de um cruzeiro, é considerada um exemplar único da arquitetura de inspiração bizantina na Península Ibérica.
A arte visigótica é considerada pré-românica?
Sim. Na tradição historiográfica portuguesa e espanhola, a arte visigótica integra-se no chamado período pré-românico, anterior à difusão do românico, embora a crítica anglo-saxónica a aproxime sobretudo da arte das migrações germânicas.
Onde se conserva o melhor espólio visigótico em Portugal?
No Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja, instalado na Igreja de Santo Amaro, que reúne a mais importante coleção de elementos arquitetónicos e escultóricos visigóticos do país, valendo a Beja o epíteto de capital portuguesa da arte visigótica.

Fontes

  1. Arte visigótica em Portugal — Wikipédia
  2. Capela de São Frutuoso de Montélios — SIPA / DGPC
  3. Núcleo Visigótico do Museu Regional de Beja — Museus e Monumentos de Portugal