Períodos & Estilos
Arte e Arquitetura Moçárabe em Portugal
A arte moçárabe em Portugal: cristãos sob domínio islâmico e a fusão visigótico-árabe que culmina na Igreja de São Pedro de Lourosa (912).
A arte moçárabe nasce de uma circunstância histórica singular: a permanência de comunidades cristãs em territórios da Península Ibérica conquistados pelos muçulmanos a partir de 711. Esses cristãos — os moçárabes, do árabe musta’rib, «arabizado» — não se converteram ao Islão, mas viveram durante séculos imersos numa cultura islâmica que lhes moldou profundamente a sensibilidade estética. O resultado é uma linguagem artística de fronteira, em que a herança litúrgica e construtiva visigótica se cruza com o vocabulário decorativo e estrutural do al-Andalus.
Em Portugal, os vestígios moçárabes são escassos mas de valor excecional, sobretudo porque documentam um momento em que a fronteira entre o domínio cristão do Norte e o islâmico do Sul permanecia fluida e porosa. A produção concentra-se na faixa central do território, em diocese antigas como a de Coimbra e na região da antiga Egitânia de Idanha-a-Velha, onde sobreviveram pedras e estruturas reaproveitadas em fases posteriores.
Características da arquitetura moçárabe
A arquitetura moçárabe distingue-se por uma notável mestria no aparelho de cantaria, frequentemente em soga e tição, combinada com uma sobriedade quase austera no exterior. As igrejas tendem a ser de pequena dimensão, organizadas em espaços compartimentados e abobadados. O traço mais imediatamente reconhecível é o arco em ferradura — estreito, peraltado a cerca de dois terços do raio —, herdado da tradição islâmica mas com raízes que recuam ao próprio período visigótico.
A este somam-se as janelas geminadas, ou ajimezes, o enquadramento retangular dos arcos pelo alfiz e os capitéis coríntios de motivos vegetalistas muito estilizados. O reaproveitamento de materiais romanos e visigóticos — colunas, cornijas, fustes — é constante, conferindo a estes edifícios uma densidade arqueológica que atravessa vários séculos numa só fachada.
A originalidade moçárabe não está na invenção de formas novas, mas na síntese: tomar o arco islâmico e a planta cristã e fundi-los num espaço de culto que era, ele próprio, um manifesto de resistência cultural.
São Pedro de Lourosa, o testemunho maior
O monumento que melhor encarna esta síntese é a Igreja de São Pedro de Lourosa, em Oliveira do Hospital, datada epigraficamente de 912 (era hispânica de 950). Trata-se de um dos raros templos pré-românicos sobreviventes em Portugal e, presumivelmente, da igreja mais antiga em culto cristão ininterrupto no país. Foi classificada como Monumento Nacional em 1916.
A sua planta basilical de três naves, separadas por arcarias de arcos em ferradura assentes em colunas, revela uma filiação fiel aos modelos áulicos asturianos do século IX, próximos da arte asturiana e pré-românica do reino das Astúrias. O nártex, o transepto demarcado e, sobretudo, os ajimezes — os únicos exemplares medievais conhecidos em Portugal — confirmam o cruzamento entre a estrutura cristã e o repertório decorativo emiral. Sob a igreja e no adro subsistem sepulturas escavadas na rocha, algumas antropomórficas, e o local conserva memória de ocupação romana e visigótica anterior.
Entre a herança visigótica e a herança islâmica
Compreender a arte moçárabe exige situá-la entre dois mundos. Por um lado, ela prolonga a tradição da arte visigótica em Portugal, de que herda a planta, a liturgia e parte da gramática dos arcos. Por outro, é inseparável da arte islâmica em Portugal, cujos modelos decorativos, técnicas de cantaria e o próprio arco em ferradura peraltado lhe deram a face mais reconhecível.
Para além da arquitetura, a faceta mais célebre da cultura moçárabe foi a iluminura: os comentários ao Apocalipse de Beato de Liébana, copiados e ornados em scriptoria como os de Tábara e Facundus, contam-se entre as obras-primas da Idade Média peninsular, ainda que produzidos sobretudo a oriente. Já no século XII, a difusão de novas formas levaria à substituição progressiva desta linguagem pela arquitetura românica em Portugal, que se imporia como estilo dominante do território cristão em consolidação.
Perguntas frequentes
- O que significa a palavra «moçárabe»?
- Designa os cristãos que permaneceram nos territórios da Península Ibérica sob domínio islâmico, do século VIII ao XII, conservando a sua fé mas adotando traços culturais e artísticos árabes. O termo deriva do árabe «musta'rib», isto é, «arabizado».
- Qual é o monumento moçárabe mais importante de Portugal?
- A Igreja de São Pedro de Lourosa, em Oliveira do Hospital (distrito de Coimbra), datada epigraficamente de 912, é o exemplar moçárabe mais significativo do país e uma das igrejas mais antigas em culto ininterrupto em Portugal.
- Como se reconhece a arquitetura moçárabe?
- Pelos arcos em ferradura estreitos e peraltados, pelas janelas geminadas (ajimezes), pela sobriedade decorativa exterior, pelo enquadramento dos arcos por alfiz e pelo recurso a materiais romanos e visigóticos reaproveitados.