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Azulejo Azul e Branco

O azulejo azul e branco: a grande tradição figurativa barroca portuguesa entre 1690 e 1750, dos mestres do ciclo joanino aos painéis monumentais.

Azulejo Azul e Branco
Pedro Ribeiro Simões from Lisboa, Portugal, CC BY 2.0 — Wikimedia Commons

Entre o final do século XVII e meados do século XVIII, a azulejaria portuguesa atravessou aquela que é frequentemente considerada a sua idade de ouro. Foi um tempo em que a cor desapareceu da parede e tudo se reduziu a duas tonalidades: o azul de cobalto sobre um fundo branco brilhante. Longe de empobrecer a arte, esta contenção cromática libertou os pintores para a composição, a perspetiva e a narrativa, dando origem a alguns dos conjuntos mais ambiciosos jamais produzidos com azulejo em Portugal.

A moda do azul

A predileção pelo azul e branco não nasceu por acaso. Ao longo do século XVII, a Europa rendeu-se à porcelana chinesa que chegava pelas rotas do comércio oriental, com a sua pintura a azul sobre branco, e à faiança holandesa de Delft, que a imitava e exportava em larga escala. Esse gosto contagiou os ateliers portugueses, que abandonaram progressivamente as paletas multicolores dos padrões de inspiração hispano-mourisca e italiana.

Um episódio político acelerou a mudança. Entre 1687 e 1698, o rei D. Pedro II suspendeu a importação de azulejos, obrigando o mercado a depender da produção nacional. As olarias de Lisboa responderam com vigor, e oficinas como a de Gabriel del Barco assumiram encomendas monumentais. A interrupção das importações, longe de travar a arte, consolidou uma escola portuguesa autónoma.

O Ciclo dos Mestres

O período compreendido entre cerca de 1690 e 1725 ficou conhecido como Ciclo dos Mestres. Pela primeira vez de forma sistemática, o pintor de azulejo afirmou-se como artista de pleno direito: assinava os seus painéis, adaptava as composições aos espaços a revestir com notável engenho e socorria-se livremente de gravuras europeias como repertório iconográfico. Figuras como António de Oliveira Bernardes e o seu filho Policarpo elevaram a azulejaria a um patamar de virtuosismo pictórico que rivalizava com a pintura a óleo.

No azulejo barroco, a parede deixou de ser suporte para se tornar moldura: cada painel encena uma cena, e o conjunto lê-se como um livro ilustrado de cerâmica.

Seguiu-se o ciclo joanino, assim chamado por coincidir com o reinado de D. João V (1706–1750), tempo de abundância e de grandes campanhas decorativas. Mestres como Valentim de Almeida, Bartolomeu Antunes e Nicolau de Freitas multiplicaram os painéis em igrejas, conventos e palácios. A composição enquadrava-se agora em molduras arquitetónicas pintadas, com colunas, frontões e figuras alegóricas, prolongando ilusoriamente a arquitetura real do edifício.

Da parede ao património

O azulejo azul e branco tornou-se indissociável da própria ideia de espaço português. Cobriu naves de igrejas com ciclos hagiográficos, claustros conventuais com episódios bíblicos e salas nobres com cenas de caça, fábulas ou alegorias. A sua linguagem dialoga com os grandes estilos da época, do esplendor do Barroco joanino visível no Convento de Mafra à transição para o gosto rococó. É também o elo entre a azulejaria de padrão de raiz manuelina e renascentista e a posterior produção em série do período pombalino, mais sóbria e racionalizada após o terramoto de 1755.

Integrado no vasto universo das artes decorativas portuguesas, o azulejo azul e branco permanece um dos traços identitários mais reconhecíveis do país. Os seus painéis continuam a revestir fachadas e interiores de norte a sul, testemunhos de uma época em que duas cores bastaram para narrar a história, a fé e o quotidiano de uma nação.

Perguntas frequentes

Porque é que os azulejos portugueses do Barroco são azuis e brancos?
A escolha do azul de cobalto sobre fundo branco resultou da moda europeia da porcelana chinesa e da faiança holandesa de Delft, que tornaram esta bicromia o gosto dominante entre o final do século XVII e meados do século XVIII.
O que foi o Ciclo dos Mestres?
Designa o período, situado entre cerca de 1690 e 1725, em que os pintores de azulejo passaram a assinar os seus painéis e a afirmar-se como artistas, criando grandes composições figurativas de autoria reconhecida.
Quem foram os principais mestres do azulejo azul e branco?
Entre os nomes mais relevantes contam-se Gabriel del Barco, António de Oliveira Bernardes, Valentim de Almeida e Bartolomeu Antunes, ativos sobretudo no período joanino.

Fontes

  1. Azulejo — Wikipédia
  2. Museu Nacional do Azulejo — O azulejo em Portugal (Google Arts & Culture)
  3. Uma breve história da azulejaria portuguesa — RTP Ensina