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A cidade portuguesa

Existe um modo português de fazer cidade? Da vila medieval à praça pombalina, a leitura de uma cultura urbanística própria.

Óbidos, vila murada · Alvesgaspar, CC BY-SA 3.0 — Wikimedia Commons

A expressão «cidade portuguesa» encerra um problema antes de oferecer uma resposta. Terá Portugal um modo próprio de fazer cidade — distinto do castelhano, do italiano ou do flamengo — ou limitou-se a receber e adaptar modelos europeus comuns? A questão atravessa um século de historiografia e continua produtiva, porque obriga a olhar a cidade não como cenário, mas como artefacto cultural.

A herança medieval

A rede urbana portuguesa fixa-se cedo. No rescaldo da Reconquista, os forais dos séculos XII e XIII desenham um país de vilas pequenas e numerosas, muitas delas amuralhadas, encaixadas na topografia — a colina, o esporão sobre o rio, a encosta defensável. Óbidos, Marvão, Monsaraz são fósseis vivos desse urbanismo de adaptação ao sítio, em que a forma da cidade é ditada menos por um plano do que pelo terreno e pela muralha.

A invenção da praça

É na Época Moderna que se desenha um traço mais deliberado. A abertura do Terreiro do Paço em Lisboa, as praças regulares e a fundação de localidades de raiz — como Vila Real de Santo António, traçada por ordem do Marquês de Pombal em 1774 segundo um plano ortogonal executado em meses — revelam um Estado capaz de pensar a cidade como projeto político e geométrico.

A cidade portuguesa oscila, ao longo da sua história, entre dois polos: a adaptação orgânica ao sítio e a imposição de uma ordem abstrata. Compreendê-la é compreender essa tensão.

Uma cultura urbanística

Há um argumento, hoje amplamente aceite, de que Portugal desenvolveu uma verdadeira cultura urbanística — um saber-fazer transmitido entre engenheiros militares, mestres e provedores das obras —, que se exportou depois à escala de um império, do Brasil a Goa. O interesse de estudar a cidade portuguesa dentro de fronteiras é, em parte, reconstituir esse saber no seu ponto de origem, antes da sua disseminação oceânica.

Ler uma cidade portuguesa é, assim, ler camadas: a muralha medieval, o convento que a extravasou, a praça moderna, o ensanche oitocentista, a avenida do século XX. Nenhuma apagou inteiramente a anterior — e é dessa acumulação que nasce a sua densidade.