Temas
A arte rupestre do Côa
Milhares de gravuras paleolíticas ao ar livre no vale do Côa: o mais importante conjunto de arte rupestre do seu género e a sua salvação à beira de uma barragem.
No vale do rio Côa, no nordeste transmontano, há cavalos, auroques e cabras-monteses gravados na rocha há mais de vinte mil anos. É o mais notável conjunto de arte paleolítica ao ar livre conhecido — e esteve, nos anos 1990, a poucos meses de desaparecer sob as águas de uma barragem.
Arte ao ar livre
Quase toda a arte do Paleolítico Superior que conhecemos está no interior de grutas — Altamira, Lascaux. O Côa é diferente: as gravuras estão a céu aberto, sobre afloramentos de xisto ao longo do vale, expostas há milénios à luz e à intempérie. Isso torna-as raras e, durante muito tempo, fê-las passar despercebidas.
As técnicas são sobretudo a picotagem e a incisão. Os temas são os grandes animais da última glaciação, por vezes sobrepostos em sucessivas gerações de gravadores, num mesmo painel trabalhado ao longo de milhares de anos.
A polémica da barragem
A descoberta da extensão do conjunto, em 1994, coincidiu com a construção avançada de uma barragem que o submergiria. Seguiu-se um debate público intenso, com forte mobilização científica e cívica, sob o lema «as gravuras não sabem nadar». Em 1995 o Governo decidiu suspender a obra e classificar o vale.
O caso do Côa é um marco na história do património em Portugal: a primeira vez que a defesa de um bem arqueológico prevaleceu, na opinião pública e na decisão política, sobre uma grande obra de engenharia.
Parque e reconhecimento
Da decisão nasceu o Parque Arqueológico do Vale do Côa e, mais tarde, um museu. Em 1998 o conjunto foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO, alargada em 2010 ao sítio espanhol de Siega Verde, no mesmo sistema do Douro. Visitar as gravuras, hoje, faz-se em percursos guiados ao fim da tarde, quando a luz rasante revela os traços que a meio-dia desaparecem na rocha — uma lição sobre como o próprio modo de olhar faz parte do património.