Tipologias
Coretos e Cine-Teatros
Coretos e cine-teatros em Portugal: do palco de ferro oitocentista dos jardins públicos às salas de espetáculo Art Déco e modernistas do século XX.
Poucas tipologias traduzem tão bem a vida coletiva portuguesa dos últimos dois séculos como o coreto e o cine-teatro. Um pertence ao ar livre dos jardins oitocentistas, o outro à penumbra das salas de espetáculo do século XX, mas ambos foram, na sua época, o coração do convívio nas vilas e cidades: lugares onde a comunidade se reunia para ouvir música, ver e ser vista.
O coreto: palco de ferro ao ar livre
O coreto afirma-se a partir de meados do século XIX como elemento central do passeio público e do jardim romântico. Pequena construção elevada, de planta circular ou poligonal e cobertura cónica ou em cúpula, destinava-se a acolher as bandas filarmónicas que animavam as tardes e os serões. À sua volta organizava-se o ritual do passeio dominical, parte de um modo de vida urbano que o coreto ajudou a fixar.
A sua difusão é inseparável da arquitetura do ferro, que então oferecia um repertório de peças fundidas, leves e ornamentadas, produzidas em série pelas fundições e montadas no local. Muitos coretos eram, na origem, estruturas desmontáveis, transportadas e remontadas conforme a ocasião. O coreto do Jardim do Coreto de Tavira, por exemplo, foi fabricado no Porto e levado por via marítima até ao Algarve para a inauguração do jardim, em 1890 — testemunho de uma indústria que difundia modelos de norte a sul do país.
O coreto democratizou a música: levou a banda filarmónica para a praça pública, ao alcance de quem nunca entraria num teatro.
A gramática decorativa do ferro fundido — colunas esguias, balaustradas vazadas, frisos e cresteria — aproxima muitos coretos do gosto da Arte Nova e dos revivalismos finisseculares. Apesar da escala modesta, são hoje peças de notável valor patrimonial, frequentemente o único exemplar de ferro fundido ornamental sobrevivente numa localidade.
O cine-teatro: a sala polivalente do século XX
Já no século XX, a sala de espetáculos assume nova forma com o cine-teatro. Concebido para acolher simultaneamente teatro, revista, concerto e projeção cinematográfica, dispunha de palco, camarins, bastidores e teia, a par da tela e da cabina de projeção. Esta polivalência respondia à economia das pequenas e médias cidades, onde uma única sala tinha de servir todos os usos.
A linguagem dominante foi o Art Déco e, depois, o modernismo: fachadas sóbrias e geométricas, interiores cuidados no mobiliário e nos revestimentos, salas amplas em pé-direito generoso. O Cineteatro Capitólio, em Lisboa, inaugurado em 1931 com projeto de Luís Cristino da Silva, é referência inaugural desta cultura arquitetónica, reunindo music-hall, teatro e cinema num mesmo edifício de feição moderna.
A construção de cine-teatros multiplicou-se entre as décadas de 1930 e 1950, em boa parte no quadro das políticas culturais do Estado Novo. Pela sua linguagem e cronologia, integram-se de pleno na arquitetura do Estado Novo, funcionando como equipamentos de prestígio cívico em sedes de concelho por todo o território.
Um património em risco e em recuperação
Coretos e cine-teatros partilham hoje a condição de tipologias frágeis. O coreto sofreu o desuso das bandas e a degradação do ferro exposto; o cine-teatro foi vítima da televisão, do multiplex e da especulação imobiliária, tendo muitas salas sido encerradas, descaracterizadas ou demolidas. Nas últimas décadas, porém, numerosos municípios reabilitaram os seus cine-teatros como auditórios e centros culturais, e restauraram coretos como marcos de identidade local. Distintas do circuito erudito dos teatros e casas de ópera, estas duas tipologias formam um capítulo próprio entre as tipologias do património edificado português — o da arquitetura do lazer e do espetáculo popular.
Perguntas frequentes
- O que é um coreto?
- É uma pequena estrutura circular ou poligonal, elevada e coberta, instalada em jardins e praças para acolher as bandas filarmónicas que animavam a vida pública. Muitos foram executados em ferro fundido na segunda metade do século XIX.
- O que distingue um cine-teatro de um cinema?
- O cine-teatro foi concebido como sala polivalente, com palco, camarins e bastidores aptos a receber teatro, revista, concertos e projeção de cinema. Difere do cinema puro, pensado apenas para a tela.
- De que época são os cine-teatros portugueses?
- A maioria foi construída entre as décadas de 1920 e 1950, em linguagem Art Déco e modernista, muitos no quadro das políticas culturais do Estado Novo.