Tipologias
Teatros e Casas de Ópera
Teatros e casas de ópera em Portugal: do São Carlos ao D. Maria II, a arquitetura à italiana e o património cénico erudito construído entre os séculos XVIII e XX.
Entre as tipologias do património edificado português, poucas concentram tanto significado simbólico como o teatro e a casa de ópera. Mais do que salas de espetáculo, foram, desde finais do século XVIII, instrumentos de civilização e de prestígio: lugares onde a corte, e depois a burguesia, se reuniam para ver e ser vistas, e onde se ergueu uma arquitetura erudita ao serviço da palavra, da música e da convivência social.
A casa de ópera e o modelo à italiana
O marco fundador é o Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, inaugurado a 30 de junho de 1793 com La ballerina amante, de Domenico Cimarosa. Construído em apenas seis meses segundo projeto de José da Costa e Silva, o São Carlos importou para a capital o modelo das grandes casas de ópera italianas — o San Carlo de Nápoles e o alla Scala de Milão —, do qual retirou a planta em ferradura, os vários andares de camarotes sobrepostos e o palco à italiana com boca de cena.
Este modelo, dito teatro à italiana, definiu a tipologia ao longo de todo o século XIX. A sala em ferradura não respondia apenas à acústica e à visibilidade: organizava a sociedade em estratos, com a plateia, a frisa, os camarotes e a galeria a traduzir hierarquias bem precisas. Ir ao teatro era um ato simultaneamente artístico e mundano, e a arquitetura desenhava-se para acolher essa dupla função.
O teatro oitocentista foi pensado tanto para se ver o palco como para o público se ver a si próprio — daí a sala em ferradura, espelho da sociedade que a frequentava.
O teatro como projeto nacional
Se a ópera nasceu de iniciativa régia, o teatro declamado tornou-se, no Liberalismo, um projeto de Estado. Após a revolução de setembro de 1836, Passos Manuel encarregou Almeida Garrett de delinear um plano para um teatro nacional que fosse “escola de bom gosto” e instrumento de regeneração moral. Desse impulso resultaram o Conservatório de Arte Dramática e, sobretudo, o Teatro Nacional D. Maria II, inaugurado a 13 de abril de 1846.
Erguido sobre as ruínas do Palácio dos Estaus — antiga sede da Inquisição —, no Rossio, o D. Maria II foi projetado pelo arquiteto italiano Fortunato Lodi em linguagem neoclássica de raiz palladiana, com um pórtico hexastilo que avança da fachada como um templo. Tornou-se a casa do teatro de língua portuguesa e continua a sê-lo. A memória material e documental deste universo cénico está hoje reunida no Museu Nacional do Teatro e da Dança, em Lisboa.
Um património disperso pelo território
Para lá da capital, a tipologia floresceu nas principais cidades. No Porto, o Real Teatro de São João abriu em 1798; destruído por incêndio em 1908, foi reconstruído por José Marques da Silva e reinaugurado em 1920, num Teatro Nacional São João que concilia a herança clássica com novas técnicas de betão. Em Évora, o Teatro Garcia de Resende (1892), de iniciativa das elites locais, é considerado um dos exemplares mais puros do teatro à italiana na Europa, com afinidades diretas com o São Carlos.
A linguagem destes edifícios pertence em larga medida ao romantismo e aos revivalismos oitocentistas, que vestiram a sala à italiana com fachadas neoclássicas, ecletismos e profusa decoração interior. Distinguem-se assim do circuito mais popular dos coretos e cine-teatros, pertencendo ao polo erudito do espetáculo. Frágeis e dispendiosos de manter, muitos integram hoje a Rota Europeia de Teatros Históricos e constituem, no conjunto das tipologias do património edificado, um dos capítulos mais expressivos da arquitetura do espetáculo em Portugal.
Perguntas frequentes
- Qual é a casa de ópera mais antiga de Portugal?
- O Teatro Nacional de São Carlos, em Lisboa, inaugurado a 30 de junho de 1793. É um dos teatros líricos mais antigos da Europa a conservar ainda a sua estrutura original e está classificado como Monumento Nacional.
- O que é um teatro à italiana?
- É o modelo dominante na construção teatral europeia entre os séculos XVII e XIX, com sala em ferradura, vários níveis de camarotes sobrepostos e palco à italiana com boca de cena. A disposição privilegiava tanto o espetáculo como a sociabilidade do público.
- Quantos teatros históricos sobrevivem em Portugal?
- Restam poucos teatros oitocentistas íntegros. Entre os mais representativos contam-se o São Carlos e o D. Maria II, em Lisboa, o São João, no Porto, e o Garcia de Resende, em Évora, vários integrados na Rota Europeia de Teatros Históricos.