Monumentos
Fortaleza de Peniche
Fortaleza de Peniche: praça-forte abaluartada do séc. XVI-XVII em Peniche, prisão política do Estado Novo e hoje Museu Nacional Resistência e Liberdade.
A Fortaleza de Peniche ergue-se na extremidade sul da península de Peniche, sobre a escarpa rochosa que domina o Atlântico, no concelho de Peniche (distrito de Leiria). Trata-se de uma das mais notáveis praças-fortes abaluartadas do litoral português, classificada como Monumento Nacional desde 1938. Para além do seu valor enquanto exemplar de arquitetura militar moderna, é hoje sobretudo conhecida pelo papel que desempenhou como prisão política durante o Estado Novo.
Uma praça-forte sobre o Atlântico
A fortificação da península respondeu à necessidade de defender a costa oeste das incursões marítimas que assolavam o reino no século XVI. As obras iniciaram-se em 1557, no reinado de D. João III, com a edificação de um primeiro reduto, mas o desenvolvimento do recinto abaluartado prolongou-se ao longo dos séculos XVI e XVII. Sob a direção do conde Jerónimo de Ataíde, o conjunto era dado por concluído por volta de 1645, já no contexto da Guerra da Restauração, quando a defesa da costa ganhou nova urgência.
O resultado é uma praça-forte de planta poligonal irregular, adaptada ao terreno, com baluartes, revelins, fossos e muralhas espessas reforçadas por amplos baluartes angulares — vocabulário característico da arquitetura militar abaluartada que se difundiu na Europa a partir do Renascimento. Ao longo dos séculos seguintes, a fortaleza conheceu episódios militares marcantes, da resistência ao desembarque de tropas no contexto da União Ibérica à ocupação francesa durante as Invasões, no início do século XIX.
Da defesa militar à prisão política
Esgotada a sua função defensiva, a fortaleza foi sendo reconvertida a usos diversos ao longo do século XIX, servindo já então, pontualmente, de prisão. Foi, porém, em 1934 que o Estado Novo a transformou numa prisão política de alta segurança, destinada a deter opositores ao regime de António de Oliveira Salazar.
Durante quatro décadas, a Fortaleza de Peniche tornou-se um dos mais temidos cárceres da ditadura, ligada à atuação da polícia política. O episódio mais célebre ocorreu na noite de 3 de janeiro de 1960, quando Álvaro Cunhal e outros nove presos protagonizaram uma evasão espetacular, descendo as muralhas com o auxílio de cordas. A chamada “fuga de Peniche” converteu-se num dos grandes símbolos da resistência antifascista portuguesa. Com a Revolução dos Cravos, em 25 de abril de 1974, a fortaleza foi um dos alvos do movimento e os presos políticos foram libertados.
Memória e museu
Após a Revolução, o monumento acolheu durante anos antigos colonos regressados das ex-colónias e foi alvo de sucessivas reflexões sobre o destino a dar a um espaço de tão densa memória. Em 2024, a fortaleza passou a albergar o Museu Nacional Resistência e Liberdade, instituição vocacionada para preservar a memória da repressão política e celebrar a conquista das liberdades democráticas.
A par de outras fortificações costeiras portuguesas, a Fortaleza de Peniche conjuga assim duas leituras: a do engenho militar moderno, legível nas suas linhas abaluartadas, e a da história contemporânea do país, inscrita nas celas onde se cruzaram repressão e resistência.
Perguntas frequentes
- Quem mandou construir a Fortaleza de Peniche?
- As obras de fortificação foram iniciadas em 1557, no reinado de D. João III, e o conjunto abaluartado só ficaria concluído por volta de 1645, sob orientação do conde Jerónimo de Ataíde.
- Porque é a Fortaleza de Peniche famosa como prisão?
- Entre 1934 e 1974 funcionou como prisão política de alta segurança do Estado Novo, onde estiveram detidos numerosos resistentes antifascistas. A célebre fuga de Álvaro Cunhal e outros presos, em 3 de janeiro de 1960, tornou-a num símbolo da resistência.
- O que se pode visitar hoje na fortaleza?
- Desde 2024 a fortaleza alberga o Museu Nacional Resistência e Liberdade, dedicado à memória da resistência à ditadura e à conquista da liberdade. É também possível percorrer as muralhas abaluartadas e os baluartes sobre o Atlântico.