Tipologias

Fortalezas Abaluartadas

Fortalezas abaluartadas em Portugal: a traça italiana, o sistema de Vauban e a raia luso-espanhola, de Valença e Almeida a Elvas e Marvão.

Fortalezas Abaluartadas
No machine-readable author provided. OsvaldoGago assumed (based on copyright claims)., CC BY-SA 3.0 — Wikimedia Commons

As fortalezas abaluartadas constituem uma das tipologias mais marcantes do património militar português. Nascida da resposta à artilharia de pólvora, esta arquitetura substituiu as altas muralhas e torres dos castelos medievais por linhas baixas, espessas e geometricamente calculadas, capazes de absorver o impacto das balas e de varrer com fogo cruzado todo o terreno em redor. O resultado é a inconfundível planta em estrela que ainda hoje desenha as fronteiras de tantas vilas raianas.

Da traça italiana ao sistema de Vauban

O modelo abaluartado surgiu em Itália a partir do final do século XV, sendo por isso conhecido como traça italiana. O seu elemento essencial é o baluarte, uma estrutura pentagonal projetada para fora da muralha que elimina os ângulos mortos e permite o flanqueamento recíproco entre obras vizinhas. Os baluartes ligam-se por cortinas retas e são reforçados por revelins no interior do fosso, antecedidos pela contraescarpa, pelo caminho coberto e por um glacis em suave declive que protege a base das muralhas do tiro direto.

Ao longo dos séculos XVI e XVII, o sistema foi sucessivamente refinado nas escolas italiana, holandesa e francesa. Em França, Sébastien Le Prestre de Vauban (1633–1707), Marechal e Comissário-Geral das Fortificações de Luís XIV, codificou os princípios que tornariam o seu nome sinónimo da própria disciplina. A sua influência atravessou a fronteira e moldou boa parte das praças-fortes portuguesas erguidas no mesmo período.

A lógica abaluartada inverteu a defesa: já não se tratava de erguer paredes mais altas, mas de organizar o tiro de forma a que nenhum ponto do perímetro ficasse por defender.

A raia luso-espanhola

Foi com a Guerra da Restauração (1640–1668) que Portugal mais investiu nesta tipologia. Para garantir a independência face à Coroa de Castela, a Coroa portuguesa contratou engenheiros estrangeiros — entre eles o jesuíta holandês Cosmander e diversos mestres franceses — e encheu a fronteira terrestre de fortificações modernas, de Castro Marim a Valença do Minho, passando por Almeida, Chaves, Marvão e Elvas.

Estas praças-fortes não eram obras isoladas, mas elos de um sistema defensivo articulado ao longo da raia, a linha de fronteira que separa Portugal de Espanha. Cada uma controlava um corredor de penetração, e o conjunto formava uma barreira contínua de várias centenas de quilómetros. A guarnição fronteiriça de Elvas, com a sua imensa cintura de baluartes e os fortes satélites de Nossa Senhora da Graça e de Santa Luzia, tornou-se o exemplo mais grandioso, sendo classificada como Património Mundial pela UNESCO em 2012.

Um património reconhecido

A excecionalidade deste legado levou à apresentação de uma candidatura conjunta das fortificações abaluartadas da raia a Património Mundial, em que Almeida, Marvão e Valença surgem como exemplos emblemáticos de um sistema fronteiriço próximo, na conceção e na execução, dos modelos vaubanianos. A valorização turística deste conjunto encontra hoje expressão na Rota das Fortalezas Abaluartadas da Raia, que percorre as principais praças-fortes ao longo da fronteira.

Mais do que máquinas de guerra, estas fortalezas redesenharam o território. Muitas das vilas fortificadas da raia conservam intactos os seus perímetros estrelados, em que a cidade e a defesa se confundem numa só forma — testemunho de quase três séculos de engenharia militar ao serviço da soberania portuguesa.

Perguntas frequentes

O que é uma fortaleza abaluartada?
É uma fortificação concebida para resistir à artilharia, organizada a partir de baluartes pentagonais ligados por cortinas, que substituiu as torres e muralhas verticais dos castelos medievais por traçados geométricos baixos e em estrela.
Qual a maior fortaleza abaluartada de Portugal?
Elvas alberga o maior conjunto de fortificações abaluartadas terrestres do mundo, classificado pela UNESCO como Património Mundial em 2012.
O que foi o sistema de Vauban?
Foi o conjunto de princípios de fortificação aperfeiçoado pelo engenheiro francês Sébastien Le Prestre de Vauban (1633–1707), que influenciou muitas das praças-fortes da raia portuguesa construídas durante e após a Guerra da Restauração.

Fontes

  1. Fortificação abaluartada — Wikipédia
  2. Bulwarked Fortifications of the Raia (Border) — UNESCO World Heritage Centre
  3. Garrison Border Town of Elvas and its Fortifications — UNESCO