Património Imaterial
Galo de Barcelos
O Galo de Barcelos, figura de barro nascida de uma lenda medieval, é hoje um dos mais reconhecidos símbolos de Portugal e do artesanato do Minho.
O Galo de Barcelos é uma figura de barro, vivamente colorida e decorada com corações e flores, que se tornou um dos símbolos mais difundidos de Portugal. Nascido no artesanato da cidade de Barcelos, no distrito de Braga, o galo cruzou fronteiras como imagem do país e como expressão maior do figurado minhoto, sustentado por uma longa tradição de olaria.
A lenda fundadora
A origem do símbolo prende-se com uma lenda medieval associada ao Caminho de Santiago. Reza a tradição que um peregrino galego, de passagem por Barcelos a caminho de Compostela, foi acusado de um crime que não cometera e condenado à morte na forca. Levado perante o juiz que banqueteava, terá apontado para um galo assado posto à mesa e exclamado que, tão certo como ser inocente, aquele galo cantaria no momento do seu enforcamento.
O magistrado desdenhou da afirmação, mas, quando o peregrino estava a ser executado, o galo ergueu-se e cantou. O juiz acorreu à forca e encontrou o condenado ainda vivo, salvo por um nó mal atado na corda. Libertado, o homem teria regressado anos mais tarde a Barcelos para mandar erguer, em ação de graças à Virgem e a Santiago, um cruzeiro.
O Galo de Barcelos é um dos raros casos em que um objeto de artesanato popular se autonomizou da narrativa que lhe deu origem, passando a valer por si como ícone coletivo.
Do cruzeiro à figura de barro
A peça que materializa a lenda é o Cruzeiro do Senhor do Galo, monumento de granito datado de inícios do século XVIII e proveniente de Barcelinhos, hoje conservado no Museu Arqueológico de Barcelos, instalado nas ruínas do Paço dos Condes de Barcelos. Nele, sob o Cristo crucificado, figura o galo que evoca o milagre.
A figura de barro que hoje conhecemos é, porém, criação mais recente. Os oleiros e figureiros de Barcelos, herdeiros de uma sólida tradição cerâmica, fixaram o tipo do galo de crista alta e cauda erguida, pintado a cores garridas sobre fundo escuro e ornamentado com motivos florais. Esta produção integra-se no universo mais vasto da olaria tradicional de Barcelos, de onde também saem santos, presépios e outras figuras populares.
Símbolo nacional e património vivo
O salto do galo para emblema do país deu-se no século XX. A figura ganhou projeção a partir da participação portuguesa na Exposição de Arte Popular em Genebra, em 1935, e foi sucessivamente promovida, nas décadas seguintes, como imagem turística e identitária de Portugal. Tornou-se assim presença obrigatória em cartazes, recordações e mostras de artesanato, atravessando a fronteira entre o objeto regional e o símbolo nacional.
Continua a ser produzido por artesãos da região e exposto na feira semanal de Barcelos, à quinta-feira, uma das maiores feiras tradicionais do país, e nas festividades locais como a Festa das Cruzes. Enquanto manifestação do figurado e da arte popular portuguesa, o galo dialoga com outras tradições de barro do país, como o reconhecido figurado de Estremoz, reafirmando o lugar do artesanato cerâmico na identidade cultural portuguesa.
Perguntas frequentes
- Qual é a lenda do Galo de Barcelos?
- Conta-se que um peregrino galego, a caminho de Santiago de Compostela, foi injustamente condenado à forca em Barcelos. Diante do juiz, apontou para um galo assado e declarou que este cantaria como prova da sua inocência. O galo ergueu-se e cantou, e o homem foi salvo por um nó mal atado na corda.
- Onde se pode ver o Cruzeiro do Senhor do Galo?
- O Cruzeiro do Senhor do Galo, de inícios do século XVIII e ligado à lenda, conserva-se no Museu Arqueológico de Barcelos, instalado nas ruínas do Paço dos Condes de Barcelos, no centro histórico da cidade.
- Porque é que o galo se tornou símbolo de Portugal?
- A figura de barro ganhou projeção a partir da Exposição de Arte Popular Portuguesa em Genebra, em 1935, e foi promovida nas décadas seguintes como emblema turístico e identitário do país, tornando-se uma das imagens mais associadas a Portugal.