Património Imaterial
Arte Equestre Portuguesa
A Arte Equestre Portuguesa, a equitação clássica do cavalo Lusitano herdeira da Picaria Real, foi inscrita pela UNESCO como Património Imaterial da Humanidade…
A Arte Equestre Portuguesa é uma forma de equitação clássica que conjuga funcionalidade e estética, assente numa relação de harmonia e respeito profundo entre o cavaleiro e o cavalo, conduzida sem recurso à força e centrada no bem-estar do animal. Distingue-se pela posição característica do cavaleiro na sela, pelos arreios e trajes tradicionais e por um repertório de movimentos herdado da equitação de corte. A 4 de dezembro de 2024, foi inscrita na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO (referência 02079), tornando-se o décimo primeiro elemento português reconhecido ao abrigo da Convenção de 2003, ao lado do Fado e do Cante Alentejano.
Da Picaria Real à equitação académica
As raízes desta prática mergulham em séculos de tradição hípica portuguesa. O seu núcleo erudito é a equitação académica, cultivada na Picaria Real, a academia equestre da corte portuguesa dos séculos XVIII e início do XIX. Encerrada no século XIX, deixou como herança um saber de alta-escola que sobreviveu nas coudelarias, nas praças de touros e nas tradições da toureio a cavalo.
Esse legado é hoje preservado sobretudo pela Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE), fundada em 1979 e instalada desde 1996 no Palácio Nacional de Queluz, onde realiza apresentações públicas nos picadeiros e jardins históricos. A escola mantém deliberadamente o mesmo tipo de cavalo, os mesmos arreios bordados e os mesmos trajes setecentistas da Picaria Real, funcionando como guardiã viva de uma estética e de uma técnica que remontam ao Antigo Regime.
A arte está em obter o máximo de elegância e precisão com o mínimo de constrangimento: o cavaleiro não impõe os movimentos, sugere-os, e o cavalo executa-os como se partissem da sua própria vontade.
O cavalo Lusitano e os territórios da tradição
No centro desta arte está o cavalo Puro-Sangue Lusitano, raça flexível, ágil e dócil, particularmente apta a seguir as indicações subtis do cavaleiro. A linhagem da Coudelaria de Alter, fundada em 1748 em Alter do Chão, no Alto Alentejo, fornece os cavalos que a EPAE associa diretamente ao legado da corte. A criação e seleção da raça constituem, por isso, parte indissociável do elemento patrimonial.
A prática não se confina, contudo, aos picadeiros eruditos. Vive também nas feiras, nas romarias e nas festas populares — com destaque para a Feira Nacional do Cavalo, na Golegã —, em centros equestres e ganadarias espalhados pelo país, e na modalidade do monte à amazona, praticada por mulheres. Esta dimensão simultaneamente cortesã e popular faz da equitação um elemento de identidade coletiva, transmitido em academias, escolas e centros equestres, tanto em Portugal como no estrangeiro.
Um reconhecimento construído por etapas
A inscrição na UNESCO resultou de um processo iniciado em 2015 e conduzido em parceria pela Associação Portuguesa de Criadores do Puro-Sangue Lusitano, pela Parques de Sintra — Monte da Lua, que gere a EPAE, e pelo município da Golegã. Antes do reconhecimento internacional, a prática foi inscrita no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial em 2021, etapa exigida pela legislação portuguesa para qualquer candidatura à Convenção de 2003.
O reconhecimento integra a Arte Equestre Portuguesa no conjunto mais vasto das tradições hípicas nacionais, abordadas em arte equestre em Portugal, e reforça a sua salvaguarda enquanto expressão do amplo património cultural imaterial português. Mais do que um espetáculo, a distinção valoriza um saber-fazer transmitido entre gerações, em que a técnica, a criação animal e a memória histórica se mantêm indissociáveis.
Perguntas frequentes
- Quando foi a Arte Equestre Portuguesa reconhecida pela UNESCO?
- Foi inscrita na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade em dezembro de 2024, durante a 19.ª sessão do Comité Intergovernamental, reunida em Assunção, no Paraguai (referência 02079). Tornou-se o 11.º elemento português reconhecido ao abrigo da Convenção da UNESCO de 2003.
- Qual é o cavalo associado à Arte Equestre Portuguesa?
- O cavalo Puro-Sangue Lusitano, em particular a linhagem da Coudelaria de Alter, em Alter do Chão. A sua docilidade, agilidade e disponibilidade para colaborar com o cavaleiro tornam-no especialmente adequado à equitação académica.
- O que é a Picaria Real?
- Foi a academia equestre da corte portuguesa nos séculos XVIII e início do XIX. A Escola Portuguesa de Arte Equestre, fundada em 1979, continua o seu legado, preservando o mesmo tipo de cavalo, os mesmos arreios e os mesmos trajes.