Património Imaterial
Adufe e Música da Beira Baixa
O adufe, pandeiro quadrado tocado pelas adufeiras da Beira Baixa, e os cantares rituais de Idanha-a-Nova e Monsanto, no distrito de Castelo Branco.
O adufe é um pandeiro quadrado, instrumento de percussão que sintetiza, num só objeto, séculos de tradição musical da Beira Baixa. Tecnicamente é um membranofone de dupla face: uma armação de madeira em forma de quadrado — com cerca de 45 cm de lado — revestida em ambas as faces por pele cosida, com sementes ou pequenas peças soltas no interior que tilintam ao ritmo da percussão. As costuras laterais são dissimuladas por fitas coloridas, e os cantos enfeitam-se igualmente com fitas, fazendo do adufe tanto um instrumento como um pequeno objeto de arte popular. A sua presença mais viva concentra-se hoje nos concelhos de Idanha-a-Nova, Castelo Branco, Penamacor e Belmonte, no distrito de Castelo Branco.
Um instrumento de mulheres
Na Beira Baixa, o adufe pertence ao universo feminino. São as adufeiras que o constroem, o tocam e cantam ao seu compasso, segurando-o pelos polegares e pelo indicador da mão direita, de modo a deixar livres os restantes dedos. Duas formas de percutir geram timbres distintos: a palma aberta produz sons graves, enquanto o tamborilar dos dedos sobre a pele faz nascer notas agudas. Desta alternância nascem fórmulas rítmicas fixas — como o ritmo de passo e o ritmo de roda — que estruturam o canto e a dança.
O saber transmite-se oralmente, de mães para filhas, ligado ao calendário das festas e ao ciclo do trabalho agrícola. Figuras como Catarina Chitas, adufeira e cantadeira da região, tornaram-se símbolos da preservação desta herança. Esta dimensão coletiva e geracional aproxima o adufe de outras expressões do património cultural imaterial português, em que o conhecimento vive na prática e na memória das comunidades, e não em partituras.
Raízes árabes, repertório cristão
O nome denuncia a origem: adufe vem do árabe medieval ad-duff, designação de um tambor de moldura difundido no Médio Oriente e introduzido na Península Ibérica durante o domínio islâmico. O instrumento sobreviveu à Reconquista e foi absorvido pela cultura rural cristã, passando a acompanhar precisamente os momentos religiosos mais marcantes do ano: as alvíssaras da Páscoa, os cantos de São João, as cantigas de romaria e as procissões.
O adufe é um caso raro de continuidade cultural: um objeto de raiz islâmica que, em vez de desaparecer, se tornou voz das devoções cristãs do interior, atravessando quase um milénio nas mãos das mulheres da raia.
Esta sobrevivência é particularmente notável em aldeias históricas como Monsanto, onde o toque do adufe permanece associado às festas locais, e em todo o território envolvente da antiga Egitânia, em Idanha-a-Velha, berço romano e visigótico da região.
Idanha-a-Nova, cidade da música
A vitalidade desta tradição valeu a Idanha-a-Nova um reconhecimento internacional: em 2015 o concelho integrou a Rede de Cidades Criativas da UNESCO na categoria de Música, sendo o primeiro município português a obter esta distinção. O adufe é o emblema dessa candidatura, fruto de um longo trabalho de inventariação, ensino e divulgação do património musical local.
Para lá do adufe, a música da Beira Baixa abrange um vasto repertório de cantares, danças e instrumentos que dialogam com outras famílias do som tradicional português, dos cordofones tradicionais às formas de canto coletivo do sul, como o Cante Alentejano. Em conjunto, desenham um mapa sonoro do interior em que a voz das comunidades, e não a indústria, continua a guardar a memória do território.
Perguntas frequentes
- O que é o adufe?
- É um pandeiro quadrado, um membranofone de dupla face: uma armação de madeira em quadrado, geralmente com cerca de 45 cm de lado, revestida em ambas as faces por pele e com sementes ou pequenas peças soltas no interior, que tilintam quando o instrumento é percutido.
- Porque é que o adufe é tocado por mulheres?
- Na Beira Baixa o adufe pertence tradicionalmente ao universo feminino. São as adufeiras que o constroem, tocam e cantam, transmitindo de geração em geração o repertório ligado às festas religiosas, às romarias e ao ciclo agrícola; os homens tocam-no apenas pontualmente, fora desses contextos rituais.
- De onde vem a palavra adufe?
- Do árabe medieval ad-duff, designação de um tambor de moldura difundido no Médio Oriente e levado para a Península Ibérica durante o período islâmico, entre os séculos VIII e XII.