Arqueologia

Santuário de Panóias

O Santuário de Panóias, em Vila Real, é um santuário rupestre romano com tanques esculpidos na rocha e inscrições latinas e gregas a divindades ctónicas.

Santuário de Panóias
Carlos de Figueiredo, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

O Santuário de Panóias é um dos monumentos mais singulares do mundo romano peninsular: um espaço de culto ao ar livre, esculpido diretamente em três grandes afloramentos graníticos, no lugar de Vale de Nogueiras, a poucos quilómetros de Vila Real. Distingue-se da maioria dos templos romanos por não assentar numa arquitetura construída, mas na própria rocha viva, trabalhada para acolher tanques, escadas e plataformas onde decorriam rituais de sacrifício e iniciação.

Um culto às divindades dos mortos

A datação do santuário, situada nos finais do século II ou inícios do século III d.C., e a sua organização ritual são conhecidas graças a um conjunto excecional de inscrições rupestres. Estas atribuem a fundação do espaço a Caio Calpúrnio Rufino, senador romano (vir clarissimus), figura ligada às elites provinciais e, segundo várias interpretações, originário da Ásia Menor. Foi ele quem consagrou o local aos Deuses Severos e a Serápis, divindade de raiz egípcia associada ao mundo subterrâneo e à passagem para a morte.

As inscrições, gravadas em latim e uma delas também em grego, são raras precisamente por descreverem o ritual em pormenor. Explicam que as vítimas eram degoladas no local, que o sangue se vertia em pequenas pias, que as vísceras se queimavam nas cavidades retangulares e que a carne era consumida pelos participantes. Esta clareza documental faz de Panóias um caso quase único na epigrafia religiosa do Império, oferecendo um testemunho direto de práticas que noutros sítios apenas se podem inferir.

Poucos lugares no mundo romano permitem ler, gravadas na própria pedra do altar, as instruções exatas de como celebrar o sacrifício.

As três rochas e a paisagem ritual

O recinto organiza-se em torno de três grandes fragas graníticas, escalonadas em altura. Nelas foram talhados tanques (lacus e laciculi), pias de purificação (lavacra), uma cavidade circular destinada ao assar das carnes (gastra), degraus de acesso e encaixes para estruturas de madeira hoje desaparecidas. Admite-se que sobre os afloramentos assentassem pequenos templos, e que a progressão entre as três rochas correspondesse a etapas de uma iniciação, culminando num ritual simbólico de morte e renascimento.

Esta leitura ascensional confere ao santuário uma dimensão dramática: o iniciado avançaria de plataforma em plataforma, num percurso que aliava a topografia natural ao sentido religioso. A escolha de afloramentos pré-existentes, alguns com indícios de utilização anterior à presença romana, sugere ainda que Panóias foi um lugar sagrado de longa duração, integrado mais tarde nas formas de culto trazidas pelo Império.

Significado e classificação

Panóias inscreve-se no quadro mais vasto da arqueologia do Portugal romano, num território onde a romanização deixou marcas profundas, desde as villae rurais à exploração mineira de Tresminas, no mesmo distrito. Enquanto santuário, porém, ocupa um lugar à parte, mais próximo dos cultos mistéricos orientais do que da religião cívica oficial.

O monumento está classificado como Monumento Nacional desde 1910 e dispõe hoje de um centro interpretativo que apoia a sua visita e leitura. Continua a ser objeto de estudo no âmbito da arqueologia romana, tanto pela raridade das suas inscrições como pela forma como articula religião, paisagem e poder numa das periferias do mundo romano.

Perguntas frequentes

Onde fica o Santuário de Panóias?
Situa-se no lugar de Vale de Nogueiras, freguesia de Constantim e Vale de Nogueiras, a cerca de seis quilómetros a sudeste da cidade de Vila Real, no Norte de Portugal.
A que divindades era dedicado o santuário?
As inscrições mencionam Serápis e os Deuses Severos, divindades ligadas ao mundo dos mortos, num culto promovido por Caio Calpúrnio Rufino nos finais do século II ou inícios do século III d.C.
O que são os tanques esculpidos nas rochas?
São cavidades talhadas no granito destinadas ao ritual: degolavam-se as vítimas, recolhia-se o sangue em pias menores e queimavam-se as vísceras em tanques retangulares, conforme descrito nas próprias inscrições.

Fontes

  1. Panoias Sanctuary — Wikipedia
  2. Fragas de Panóias / Santuário de Panóias — SIPA