Arqueologia
Minas Romanas de Tresminas
As Minas Romanas de Tresminas, em Vila Pouca de Aguiar, são o maior complexo de mineração aurífera romana de Portugal, com cortas, galerias e aquedutos.
Nas encostas graníticas da Serra da Padrela, em pleno coração de Trás-os-Montes, abrem-se as maiores feridas que a mineração romana deixou no território português. As Minas Romanas de Tresminas, na freguesia homónima do concelho de Vila Pouca de Aguiar, constituem o mais vasto e bem conservado complexo de extração aurífera de época romana em Portugal, e um dos mais notáveis de todo o ocidente do Império. Por aqui passou, durante cerca de século e meio, um dos maiores esforços de engenharia mineira da Antiguidade.
Um colosso de extração aurífera
A exploração arrancou por volta de 20 a.C., na sequência da pacificação do noroeste peninsular por Augusto, e prolongou-se até finais do século II ou inícios do século III d.C., já sob Septímio Severo. O método dominante foi a lavra a céu aberto, que rasgou na rocha três imensas cortas orientadas no sentido das veias mineralizadas: a Corta de Covas, com cerca de 430 metros de comprimento, a Corta da Ribeirinha, que ultrapassa os 100 metros de profundidade, e a mais modesta Corta dos Laginhos. A elas associa-se uma rede de galerias subterrâneas — entre as quais a Galeria do Pilar, com perto de 300 metros — escavadas no afloramento para alcançar os filões mais ricos.
O que se procurava era o ouro, mas o minério continha também prata e chumbo, recuperados como subprodutos no tratamento da rocha. As estimativas de produção apontam para vários milhares de quilogramas de ouro ao longo da vida da mina, número que ajuda a explicar o peso estratégico que estas explorações tinham na economia imperial.
Engenharia da água e do minério
Mais do que escavar a montanha, os engenheiros romanos souberam dominar a água — sem ela, nem a rocha cedia nem o ouro se separava.
A operação dependia de um sofisticado sistema hidráulico. Aquedutos, açudes e reservatórios traziam a água necessária para os trabalhos de desmonte e, sobretudo, para a lavagem do minério moído. Em torno das cortas identificam-se ainda zonas de tratamento equipadas com moinhos de quatro pilares, áreas habitacionais que devolveram cerâmicas e moedas dos inícios do século I d.C., e mesmo vestígios interpretados como um pequeno anfiteatro. A presença da Legio VII Gemina atesta o controlo militar direto que Roma exercia sobre um recurso tão precioso.
Esta lógica de exploração estatal e em larga escala aproxima Tresminas de outros grandes distritos mineiros do Império. O modelo enquadra-se na tradição da arqueologia mineira romana, bem ilustrada também pelas minas de cobre de Aljustrel e o seu estatuto de Vipasca, no Alentejo, cujas tábuas de bronze nos transmitiram o regulamento legal da atividade mineira.
Memória arqueológica e reconhecimento
Tresminas permaneceu praticamente intocada desde o fim da exploração antiga, o que faz dela um testemunho excecional para o estudo da tecnologia mineira romana. Desde a década de 1980 que o sítio é objeto de campanhas sistemáticas, incluindo prospeções e, mais recentemente, levantamentos não invasivos com varrimento laser 3D do terreno e das galerias. O conjunto está hoje musealizado e integrado em percursos de visita, num território onde o legado romano se estende a outros marcos próximos, como o singular santuário rupestre de Panóias e a monumental ponte romana de Chaves.
Reconhecidas como Imóvel de Interesse Público desde 1997, as minas foram elevadas a Monumento Nacional em 2024, consagração que reflete o seu lugar maior na arqueologia romana portuguesa. Mais do que um sítio arqueológico, Tresminas é uma paisagem inteira moldada pela ambição de Roma e pelo brilho do ouro que dela soube extrair.
Perguntas frequentes
- Onde ficam as Minas de Tresminas?
- Situam-se na freguesia de Tresminas, concelho de Vila Pouca de Aguiar, distrito de Vila Real, na Serra da Padrela, no Norte de Portugal.
- O que se extraía em Tresminas?
- Sobretudo ouro, mas o minério continha igualmente prata e chumbo, recuperados como subprodutos durante o tratamento da rocha aurífera.
- Quando funcionaram as minas?
- A exploração intensiva decorreu entre cerca de 20 a.C., após a conquista augustana, e o final do século II ou início do século III d.C., no tempo de Septímio Severo.