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Tapeçaria de Portalegre

A Tapeçaria de Portalegre e o seu ponto único: a manufactura que desde 1946 traduz em lã obras de Almada Negreiros, Vieira da Silva e Lurçat.

Tapeçaria de Portalegre
Rcarruco, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

A Tapeçaria de Portalegre é um caso singular nas artes decorativas portuguesas: não uma tradição secular anónima, mas uma manufactura de autor, nascida em pleno século XX, que conquistou reputação internacional ao transformar a pintura contemporânea em obra tecida. O seu segredo é técnico e tem nome — o ponto de Portalegre —, uma forma de tecer que ninguém mais no mundo domina e que faz das tecedeiras desta pequena cidade do Alto Alentejo intérpretes de alguns dos maiores artistas do século passado.

Uma manufactura nascida de um encontro

A história começa em 1946, quando Guy Fino e Manuel Celestino Peixeiro decidem instalar em Portalegre uma produção de tapetes de nó, ofício então em vias de extinção. O rumo viria a mudar por desafio de Manuel do Carmo Peixeiro, pai de Manuel Celestino: anos antes, enquanto estudava têxteis na escola de Roubaix, em França, inventara um ponto próprio, e propôs que com ele se tecessem tapeçarias de parede em vez de tapetes de chão. A primeira tapeçaria, executada sobre cartão do pintor João Tavares, ficou concluída em 1948.

A oficina instalou-se no antigo Colégio de São Sebastião, edifício jesuíta que no século XVIII fora convertido em Real Fábrica de Lanifícios — uma continuidade de vocação têxtil que liga a nova manufactura à longa indústria de panos da cidade.

O ponto de Portalegre

O que distingue esta tapeçaria é o método. No tear de alto liço tradicional europeu, a trama colorida cobre a urdidura e constrói diretamente a imagem. No ponto de Portalegre, a tapeçaria é primeiro tecida em ponto simples e depois cada fio é recoberto por um nó de lã, escolhido entre uma vastíssima gama de cores e dado à mão, ponto a ponto. O resultado é uma superfície densa e aveludada, de fidelidade cromática extraordinária, capaz de reproduzir os subtis valores de uma pintura a óleo.

Esta minúcia tem uma consequência rara: na tapeçaria de Portalegre o reverso reproduz a imagem com a mesma definição do anverso — prova de que cada nó atravessa toda a espessura do tecido.

A contrapartida é o tempo. Uma tapeçaria de dimensão média pode exigir muitos meses de trabalho de várias tecedeiras, o que aproxima estas peças da edição limitada de arte mais do que da produção têxtil corrente.

Da pintura à parede

Foi esta capacidade de traduzir a pintura que atraiu os artistas. Ao longo de décadas, mais de duas centenas de pintores, portugueses e estrangeiros, viram a sua obra passar ao tear de Portalegre: Almada Negreiros, Maria Helena Vieira da Silva, Júlio Pomar, Lima de Freitas, Guilherme Camarinha, entre muitos outros. O reconhecimento internacional consolidou-se quando o francês Jean Lurçat, mestre da tapeçaria moderna, visitou a manufactura em 1958 e passou a mandar tecer ali várias das suas composições, considerando as operárias de Portalegre as melhores tecedeiras do mundo.

A par da arte do tapete de Arraiolos, bordado e enraizado noutra vila alentejana, a Tapeçaria de Portalegre afirma o Alto Alentejo como território têxtil de exceção, ainda que por caminhos técnicos e estéticos opostos: o bordado popular de um lado, a tradução erudita da pintura do outro.

Memória e continuidade

Para preservar e dar a conhecer este património, abriu em 2001 o Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino, instalado no centro histórico da cidade de Portalegre e dedicado tanto às obras como à figura do fundador. Reúne tapeçarias de grande formato e documenta o processo, do cartão do pintor ao nó final. A manufactura mantém-se em laboração, sendo hoje um dos raros centros do mundo onde a tapeçaria mural contemporânea continua a ser produzida segundo um saber-fazer que candidatos têm proposto a reconhecimento como património cultural.

Perguntas frequentes

O que distingue o ponto de Portalegre de outras tapeçarias?
O ponto de Portalegre é uma técnica de pesponto sobre tear de alto liço em que cada fio de trama é fixado individualmente por um nó de lã, escondendo a urdidura. Permite uma paleta cromática muito rica e traduz fielmente a pintura, ao ponto de o reverso reproduzir a imagem como o anverso.
Quem fundou a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre?
Foi fundada em 1946 por Guy Fino e Manuel Celestino Peixeiro. O ponto que a tornou célebre fora inventado anos antes por Manuel do Carmo Peixeiro, pai de Manuel Celestino, enquanto estudante têxtil em Roubaix, em França.
Que artistas viram as suas obras transformadas em tapeçaria em Portalegre?
Mais de duas centenas de pintores, entre os quais Almada Negreiros, Vieira da Silva, Júlio Pomar, Lima de Freitas e o francês Jean Lurçat, que considerou as tecedeiras de Portalegre as melhores do mundo.

Fontes

  1. Manufactura de Tapeçarias de Portalegre — História
  2. Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino — Câmara Municipal de Portalegre
  3. Manufactura de Tapeçaria de Portalegre — Visit Portugal