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Azulejo Arte Nova e moderno
A azulejaria portuguesa do século XX, da Arte Nova de Jorge Colaço ao modernismo abstrato de Maria Keil e Querubim Lapa, entre Lisboa e o Porto.
Depois de cinco séculos de tradição, o azulejo entra no século XX dividido entre dois impulsos contrários: a tentação de repetir as glórias do passado e a vontade de o reinventar como linguagem moderna. Dessa tensão nasce um dos capítulos mais ricos da arte do azulejo em Portugal — aquele que vai da exuberância ornamental da Arte Nova à depuração geométrica do modernismo.
A Arte Nova e o painel figurativo
A viragem do século traz a Portugal o gosto internacional da Art Nouveau: linhas sinuosas, motivos vegetalistas e uma valorização do trabalho artesanal. Aplicada à fachada azulejada, a nova estética cobre prédios de habitação em Lisboa, Setúbal, Aveiro e Leiria de flores estilizadas, pavões e mulheres de cabelos soltos, em cores suaves que prolongam para a rua o imaginário simbolista. A Fábrica de Louça de Sacavém foi um dos centros desta produção, dominando técnicas de estampagem que tornavam o padrão acessível à cidade comum.
Em paralelo, afirma-se um azulejo de grande painel figurativo, de gosto historicista e tardo-romântico, que tem em Jorge Colaço (1868-1942) o seu mestre incontestado. Pintor de formação, Colaço trabalhou sobre o vidrado e submetia a peça a uma segunda cozedura, obtendo efeitos próximos da aguarela. Os seus painéis da Estação de São Bento, no Porto, executados entre 1905 e 1916, narram batalhas, romarias e cenas etnográficas; outros tantos revestem a Casa do Alentejo e o grande painel da Batalha de Aljubarrota (1922), no Parque Eduardo VII. Estima-se que tenha assinado mais de mil painéis, em Portugal e no estrangeiro.
Em Colaço, o azulejo deixa de ser revestimento para se tornar pintura mural: a parede cerâmica conta a história da nação com a ambição de uma tela.
Do Art Deco ao impulso nacionalista
Nas décadas de 1920 e 1930, o azulejo acompanha o gosto Art Deco — padrões geométricos, simetrias e cores planas — visível em fachadas de Vila Franca de Xira e em criações de autores como Raúl Lino para a Fábrica Cerâmica Constância. Sob o Estado Novo, predomina um azulejo de inspiração passadista, ao serviço de uma narrativa histórica e regionalista, ainda devedor da gramática figurativa herdada de Colaço.
A renovação artística que se preparava encontra eco na obra de Jorge Barradas, que a partir dos anos 1940 devolve ao azulejo uma liberdade plástica que o aproxima da pintura contemporânea e prepara terreno para a geração seguinte.
Maria Keil e a abstração modernista
A grande viragem moderna deve-se a Maria Keil (1914-2012). A partir da Fábrica Viúva Lamego, Keil concebeu, entre 1957 e 1972, os painéis das primeiras estações do Metropolitano de Lisboa — o mais extenso conjunto de pintura mural abstrata em Portugal durante décadas. Recuperando a antiga técnica da corda seca para uma linguagem geométrica e cromática inteiramente nova, transformou o subterrâneo numa galeria pública e devolveu prestígio a uma arte então em declínio.
Com ela emerge a primeira geração modernista do azulejo, em que pontificam Querubim Lapa (1925-2016), considerado por muitos o maior ceramista português do século XX, Manuel Cargaleiro, Lino António e, mais tarde, Eduardo Nery. Trabalhando sobretudo na Viúva Lamego, estes autores fizeram da cidade — estações de metro, edifícios públicos, fachadas — o suporte de uma arte pública que cruza tradição e vanguarda. O azulejo do século XX fecha assim o círculo aberto na Idade Média: do padrão modular medieval à abstração contemporânea, sem nunca deixar de ser, em Portugal, uma arte de parede.
Perguntas frequentes
- Quem foi o principal azulejador da Arte Nova portuguesa?
- Jorge Colaço (1868-1942) foi a figura maior da azulejaria figurativa das primeiras décadas do século XX, autor dos painéis da Estação de São Bento, no Porto, e da Casa do Alentejo, em Lisboa.
- Quem renovou o azulejo moderno em Portugal?
- Maria Keil (1914-2012) e Querubim Lapa (1925-2016) lideraram a renovação modernista, sobretudo a partir da Fábrica Viúva Lamego e dos painéis das primeiras estações do Metropolitano de Lisboa.
- Onde se vê o azulejo Arte Nova em Portugal?
- Em fachadas de Lisboa, Setúbal, Aveiro e Leiria, e nos painéis figurativos de Jorge Colaço espalhados por estações, hotéis e edifícios públicos do país.