Património Imaterial

Trabalho da Cortiça e o Montado

O saber-fazer da extração e transformação da cortiça e a cultura do montado, paisagem agro-silvo-pastoril do Alentejo e do Ribatejo.

O trabalho da cortiça é um dos mais antigos e singulares saberes-fazer de Portugal, indissociável da paisagem que lhe dá origem: o montado. Esta dupla — gesto humano e ecossistema — sustenta uma cadeia que vai do sobreiro vivo à rolha, ao isolamento e ao revestimento, e que faz de Portugal o maior produtor mundial de cortiça, responsável por mais de metade da produção global.

O montado, paisagem cultivada

O montado é um sistema agro-silvo-pastoril, isto é, uma floresta aberta moldada pela mão do homem ao longo de séculos. Sob copas espaçadas de sobreiros (Quercus suber) e azinheiras crescem pastagens e cereais como o trigo, a cevada e a aveia, enquanto rebanhos e porcos aproveitam o sub-coberto. Esta densidade baixa — algumas dezenas de árvores por hectare — distingue o montado de uma floresta fechada e cria um mosaico de grande valor ecológico, refúgio de espécies ameaçadas e barreira contra a desertificação.

Em Portugal, o montado cobre cerca de 730 mil hectares e representa aproximadamente um quinto da área florestal nacional. Ocorre sobretudo a sul do Tejo, no Alentejo e no Ribatejo, embora o sobreiro se estenda por quase todo o território continental. O sobreiro está, de resto, entre as primeiras espécies legalmente protegidas do país: o seu corte é proibido e a sua exploração regulada, num raro exemplo de conservação ativa.

A cortiça é a única matéria-prima florestal que se colhe sem abater a árvore: o sobreiro regenera a casca e volta a dar, década após década, durante mais de um século.

O descortiçamento, gesto de precisão

A extração da cortiça — o descortiçamento ou tiragem — faz-se manualmente entre maio e agosto, quando a seiva facilita a separação da casca. A primeira retirada, a desbóia, ocorre por volta dos vinte e cinco anos da árvore e dá uma cortiça grosseira, a virgem; só a partir da terceira extração se obtém a cortiça amadia, de qualidade para rolha. Entre cada colheita medeiam nove anos, o tempo que o entrecasco leva a reconstituir uma camada de espessura semelhante.

O tirador trabalha com um machado de cabo longo e gume curvo, concebido para esta tarefa. O golpe tem de cortar a cortiça sem ferir a casca-mãe — um erro compromete a saúde do sobreiro e a colheita seguinte. É um saber que não se aprende em manuais: transmite-se de geração em geração, no terreno, e exige anos de prática para chegar à mão segura. Por isso o descortiçamento integra o património cultural imaterial português, tendo conhecimentos associados inscritos no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial.

Da floresta à economia e à cultura

Depois de tirada, a cortiça é empilhada a secar ao ar livre, fervida, aparada e laborada — em grande parte na região de Santa Maria da Feira, capital industrial do setor. Da prancha sai a rolha, mas também aglomerados, isolamentos térmicos e acústicos, pavimentos e materiais técnicos. As exportações de cortiça rondam os 900 milhões de euros anuais e representam cerca de 3% das vendas externas portuguesas.

Mais do que um produto, o montado é um modo de vida que articula floresta, agricultura e pecuária extensiva. A guarda dos rebanhos que pastam sob os sobreiros liga-se a práticas como o cão de gado e a pastorícia, e o conjunto inscreve-se na longa tradição do património agrícola nacional. Defender o trabalho da cortiça é, assim, defender simultaneamente um ofício, uma paisagem e um equilíbrio entre o homem e o território que poucas regiões da Europa souberam preservar.

Perguntas frequentes

O que é o descortiçamento?
É a extração manual da cortiça do sobreiro, feita entre maio e agosto. O tirador separa a casca com um machado próprio, sem ferir o entrecasco, permitindo que a árvore se regenere.
De quantos em quantos anos se tira a cortiça?
A primeira extração — a desbóia — ocorre por volta dos 25 anos da árvore. Depois, a cortiça é retirada em ciclos de nove anos, ao longo de toda a vida do sobreiro.
O que é o montado?
É um sistema agro-silvo-pastoril criado pelo homem, com sobreiros e azinheiras dispersos sobre pastagens e culturas. É a paisagem mediterrânica característica do Alentejo e do Ribatejo.

Fontes

  1. Montado — Wikipédia
  2. Cortiça — Wikipédia
  3. Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial — Matriz PCI