Património Imaterial
Cães de Gado e Pastorícia Tradicional
Os cães de gado portugueses e o seu papel na guarda dos rebanhos: as raças autóctones, a defesa contra o lobo-ibérico e os saberes da pastorícia tradicional.
Os cães de gado são uma peça central da pastorícia tradicional portuguesa. Criados durante séculos para viver entre os animais e defendê-los, distinguem-se dos cães pastores condutores: não conduzem o rebanho nem o reúnem, mas vigiam-no permanentemente e enfrentam os predadores, com destaque para o lobo-ibérico. Esta função, indissociável da transumância e da pastorícia, deu origem a um conjunto de raças autóctones robustas, talhadas pela vida nas serras e pela necessidade de proteção dos efetivos.
As raças autóctones de guarda
Portugal possui várias raças de cão de gado reconhecidas, todas de porte grande e temperamento independente, próprias dos molossos das montanhas ibéricas. O Cão da Serra da Estrela, originário do maciço central, acompanhava os rebanhos de ovelhas e cabras até pastagens acima dos 2000 metros, protegendo-os de lobos e ladrões; apresenta-se em variedades de pelo curto e pelo comprido. O Cão de Castro Laboreiro, das terras altas do Minho e da raia galega, é tido como uma das raças mais antigas da Península; o seu primeiro estalão oficial foi publicado em 1935 pelo veterinário Manuel Fernandes Marques.
No sul, o Rafeiro do Alentejo guardava herdades e rebanhos nas grandes extensões alentejanas, vigiando sobretudo durante a noite. Já em Trás-os-Montes desenvolveu-se o Cão de Gado Transmontano, a maior raça canina portuguesa, ligada às rotas de transumância do nordeste e reconhecido provisoriamente pela Fédération Cynologique Internationale (FCI) em 2020, com o estalão n.º 368. Todas estas raças partilham a mesma vocação: a defesa do gado em regime extensivo.
Um saber pastoril vivo
A eficácia do cão de gado não depende apenas da raça, mas de um saber-fazer transmitido entre pastores. O cachorro é integrado no rebanho desde muito novo, criando uma ligação afetiva com os animais que guardará toda a vida; aprende a permanecer junto deles, a desconfiar do estranho e a posicionar-se entre o rebanho e a ameaça. Este conhecimento, transmitido oralmente e pela prática, integra o vasto património cultural imaterial das comunidades serranas, a par dos saberes da ordenha, do fabrico dos queijos tradicionais e do uso dos chocalhos que assinalam a posição dos animais.
Conservação e coexistência com o lobo
O abandono da pastorícia e o recuo do lobo-ibérico ao longo do século XX puseram em risco quer as raças quer o próprio modo de vida. Hoje, porém, o cão de gado regressou ao centro das estratégias de conservação. Projetos como o LIFE WolFlux, coordenado em Portugal pela Rewilding Portugal, distribuíram mais de uma centena de cães a criadores a sul do rio Douro, com o objetivo de reduzir os ataques aos rebanhos e favorecer a coexistência com o lobo, espécie protegida e ecologicamente importante. Ao diminuir os prejuízos e os conflitos, estes cães tornam-se aliados simultâneos do pastor e da fauna selvagem, mostrando como um saber tradicional pode ganhar nova utilidade na gestão contemporânea do território.
Perguntas frequentes
- Quais são as raças portuguesas de cão de gado?
- As principais raças autóctones de guarda de rebanhos são o Cão da Serra da Estrela, o Cão de Castro Laboreiro, o Rafeiro do Alentejo e o Cão de Gado Transmontano, este último reconhecido provisoriamente pela FCI em 2020.
- Qual é a função de um cão de gado?
- Ao contrário dos cães pastores que conduzem o rebanho, o cão de gado vive permanentemente junto dos animais e defende-os de predadores, sobretudo do lobo-ibérico, sem necessitar de comandos constantes do pastor.
- Os cães de gado ajudam a proteger o lobo-ibérico?
- Sim. Ao reduzir os ataques aos rebanhos, os cães de gado diminuem os conflitos com os criadores e ajudam à coexistência com o lobo-ibérico, espécie protegida, sendo por isso usados em projetos de conservação como o LIFE WolFlux.