Património Mundial

Sítio Arqueológico do Vale do Côa

O parque que protege as gravuras paleolíticas do Côa, inscrito pela UNESCO em 1998 — e um modelo de como conservar arte rupestre ao ar livre.

Gravuras de Penascosa, Vale do Côa · Lusitana, CC BY-SA 3.0 — Wikimedia Commons

A inscrição do Sítio Arqueológico do Vale do Côa na Lista do Património Mundial, em 1998, fez mais do que reconhecer um conjunto de gravuras: consagrou um modelo de conservação e uma vitória cívica. A história das próprias gravuras do Côa conta-se à parte; aqui interessa o sítio — o território protegido e o modo como se gere.

Um parque, não um museu

O que distingue o Côa é que as gravuras não foram retiradas do seu lugar. Em vez de as levar para um museu, criou-se um parque arqueológico que conserva os painéis in situ, sobre os afloramentos do vale, ao longo de dezenas de quilómetros do rio. Conservar significa, aqui, gerir uma paisagem inteira — o acesso, a erosão, a vegetação, a luz.

Núcleos e percursos

A visita organiza-se em torno de alguns núcleos abertos ao público — Canada do Inferno, Penascosa, Ribeira de Piscos —, percorridos em veículos do parque e ao fim do dia, quando a luz rasante torna visíveis os traços que o sol alto apaga. O Museu do Côa, inaugurado em 2010 num edifício implantado na encosta sobre a foz do rio, dá o enquadramento científico sem substituir a experiência no terreno.

No Côa, o monumento não cabe num edifício: é o vale. A decisão de o conservar inteiro, e não por fragmentos musealizados, é em si mesma uma posição teórica sobre o que é o património.

Da barragem ao reconhecimento

Vale a pena lembrar a origem improvável deste parque. Surgiu da suspensão de uma barragem já em construção, em 1995, após uma mobilização nacional. Três anos depois, o reconhecimento da UNESCO selava a transformação de uma quase-perda numa referência internacional de conservação. Em 2010, a inscrição alargou-se ao sítio espanhol de Siega Verde, unindo as duas margens da mesma cultura paleolítica do Douro.

O Côa é, hoje, ao mesmo tempo um dos mais antigos e um dos mais recentes patrimónios de Portugal: arte de há vinte mil anos, salva por uma decisão de há trinta.