Arqueologia
Arqueologia mineira romana
A mineração romana em Portugal: o ouro de Tresminas, o cobre de Vipasca (Aljustrel) e a organização do trabalho mineiro na Lusitânia.
A presença de Roma no território que viria a ser Portugal não se mede apenas em cidades, vias e templos: mede-se também em metal. A província da Lusitânia e o Noroeste galaico foram, para o Império, sobretudo um vasto distrito mineiro. Daí saíram o ouro que alimentava o tesouro imperial e o cobre que sustentava a economia monetária e militar — e a arqueologia mineira romana é hoje a disciplina que reconstrói essa indústria a partir das cicatrizes deixadas na paisagem.
O ouro do Norte: Tresminas
No alto da Serra da Padrela, em Vila Pouca de Aguiar (distrito de Vila Real), o complexo mineiro romano de Tresminas é o testemunho mais espetacular da mineração aurífera romana em Portugal. A exploração terá começado ainda sob Augusto e prolongou-se até finais do século II, atingindo o auge nos séculos I e II d.C. O ouro era arrancado a céu aberto, em enormes cortas — gigantescas trincheiras escavadas no granito, das quais a Corta da Ribeirinha e a Corta de Covas ainda hoje impressionam pela escala — e também em galerias subterrâneas, ligadas por poços e percorridas por quilómetros de túneis.
A operação dependia de água: longos canais traziam-na de nascentes distantes para lavar o minério triturado e separar as partículas de ouro. Tratava-se de uma exploração estatal, cujo produto se destinava exclusivamente à administração imperial. Junto a Tresminas, os filões de Gralheira e de Jales completavam um dos maiores conjuntos auro-argentíferos da Europa romana.
O cobre do Sul: Vipasca
No Alentejo, sobre o Cinturão Piritoso Ibérico, a atual Aljustrel correspondia à povoação romana de Vipasca. Aqui não se buscava ouro, mas cobre — e, em menor quantidade, prata. O volume de escórias deixadas pela fundição, calculado em mais de cem mil metros cúbicos, dá a medida de uma exploração quase industrial, ativa sobretudo nos séculos I e II d.C.
O que torna Vipasca (Aljustrel) excecional não é, porém, a escala, mas o direito. Em 1876 e 1906 foram recuperadas, nas escombreiras das minas, duas placas de bronze com inscrições em latim — as Tábuas de Vipasca. A segunda, a Lex Metalli Vipascensis, datável do reinado de Adriano (117–138 d.C.), regulamentava ao pormenor a vida do distrito mineiro: a concessão de poços, os prazos para iniciar a exploração, a cobrança de impostos, mas também o funcionamento das termas, do barbeiro, do sapateiro e da escola.
As Tábuas de Vipasca são, talvez, o documento que melhor mostra como Roma transformava uma mina num organismo social regulado — não apenas um buraco no chão, mas uma comunidade com leis próprias.
Organizar o trabalho mineiro
Estes dois polos revelam dois modelos de exploração. Tresminas representa a grande mina estatal, dedicada a um metal precioso e gerida diretamente pela administração imperial; Vipasca mostra um distrito onde o Estado arrendava as concessões a particulares — os coloni — sob um quadro legal estrito. Em ambos, a força de trabalho combinava trabalhadores livres, mão de obra contratada e, em larga medida, escravos e condenados.
A reconstituição deste mundo é tarefa da arqueologia romana em Portugal, que cruza a leitura das cortas e galerias com o estudo das escórias, dos instrumentos e da epigrafia. Inserida na história mais ampla do património mineiro, a mineração romana ensina a ler a paisagem do interior português como o resultado de um trabalho imenso e antigo, cujas marcas a vegetação cobriu mas não apagou.
Perguntas frequentes
- Quais eram as principais minas romanas em território português?
- O complexo aurífero de Tresminas, em Vila Pouca de Aguiar, e as minas de cobre de Vipasca, na atual Aljustrel, foram as mais importantes. A primeira explorava ouro a céu aberto e em galeria; a segunda, cobre e prata no Cinturão Piritoso Ibérico.
- O que são as Tábuas de Vipasca?
- São duas placas de bronze gravadas com legislação mineira romana, encontradas em Aljustrel em 1876 e 1906. A segunda, a Lex Metalli Vipascensis, regulava a exploração das minas no tempo de Adriano e é um dos documentos jurídicos mais completos sobre mineração no Império Romano.
- Para que servia o ouro extraído em Tresminas?
- O ouro de Tresminas destinava-se ao tesouro imperial. Era uma exploração estatal, controlada pela administração romana, e contou com mão de obra que terá incluído soldados, trabalhadores livres e escravos.