Patrimónios Estudos sobre o património cultural português

Património Imaterial

Arte Equestre em Portugal

A arte equestre em Portugal, equitação clássica do cavalo Lusitano herdeira da Picaria Real, está desde 2024 na Lista Representativa do Património Imaterial.

Perguntas frequentes Fontes
Arte Equestre em Portugal
Vitor Oliveira from Torres Vedras, PORTUGAL, CC BY-SA 2.0 — Wikimedia Commons
UNESCO
Património Imaterial · desde 2024

A arte equestre em Portugal — muitas vezes designada Arte Equestre Portuguesa — é uma forma de equitação de tradição clássica que combina funcionalidade e estética numa relação de harmonia e respeito entre cavaleiro e cavalo, conduzida sem recurso à força e centrada no bem-estar do animal. Distingue-se pela posição característica do cavaleiro na sela, pelos arreios e trajes tradicionais e por um repertório de movimentos herdado da equitação de corte.

Em dezembro de 2024, a 19.ª sessão do Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial, reunida em Assunção (Paraguai), inscreveu esta prática na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade (decisão 19.COM 7.b.2, referência 02079). Tornou-se assim um dos elementos do património cultural imaterial de Portugal reconhecidos internacionalmente, ao lado do Fado e do Cante Alentejano.

Uma tradição codificada no século XVIII

As raízes desta prática mergulham em séculos de tradição hípica portuguesa, mas a sua forma clássica foi consolidada na segunda metade do século XVIII. O seu núcleo erudito é a equitação académica, cultivada na Picaria Real, a academia equestre da corte portuguesa dos séculos XVIII e início do XIX. D. Pedro de Alcântara de Meneses, 4.º Marquês de Marialva e estribeiro-mor de D. José I, teve papel decisivo no seu aperfeiçoamento. Da sua influência nasceu a expressão “montar à Marialva”, ainda hoje usada para designar o estilo português. Os seus princípios foram fixados por escrito por Manuel Carlos de Andrade na obra Luz da Liberal e Nobre Arte da Cavallaria (1790), um dos tratados de referência da equitação europeia.

Encerrada no século XIX, a Picaria Real deixou como herança um saber de alta-escola que sobreviveu nas coudelarias, nas praças de touros e nas tradições do toureio a cavalo. A prática distingue-se ainda pelo traje tradicional e pelos arreios próprios, diferentes dos de outras escolas, e inclui variantes como o monte à amazona, conduzido exclusivamente por mulheres numa sela de montar lateral.

A arte equestre portuguesa não procura dominar o cavalo, mas dialogar com ele: a obediência é fruto da comunicação e da colaboração, nunca da coação.

A Escola Portuguesa de Arte Equestre

O legado da corte é hoje preservado sobretudo pela Escola Portuguesa de Arte Equestre (EPAE), fundada em 1979 e instalada desde 1996 no Palácio Nacional de Queluz, onde realiza apresentações públicas e treinos nos picadeiros e jardins históricos. A escola mantém deliberadamente o mesmo tipo de cavalo, os mesmos arreios bordados e os mesmos trajes setecentistas da Picaria Real, funcionando como guardiã viva de uma estética e de uma técnica que remontam ao Antigo Regime.

A arte está em obter o máximo de elegância e precisão com o mínimo de constrangimento: o cavaleiro não impõe os movimentos, sugere-os, e o cavalo executa-os como se partissem da sua própria vontade.

O cavalo Lusitano

No centro desta tradição está o Puro-Sangue Lusitano, raça autóctone valorizada pela flexibilidade, agilidade, docilidade e prontidão na resposta às ajudas do cavaleiro — qualidades indispensáveis aos movimentos da alta-escola. A linhagem da Coudelaria de Alter, fundada em 1748 em Alter do Chão, no Alto Alentejo, fornece os cavalos que a EPAE associa diretamente ao legado da corte.

A criação, seleção e tratamento destes animais são, por isso, parte indissociável do elemento patrimonial, e envolvem uma vasta comunidade de criadores, veterinários, campinos e artesãos que produzem selas, arreios e trajes, assegurando a continuidade da prática.

A prática não se confina aos picadeiros eruditos. Fonte de identidade coletiva, vive também nas romarias, nas feiras e nas festas populares — com destaque para a Feira Nacional do Cavalo, na Golegã —, em centros equestres e ganadarias espalhados pelo país. O conhecimento transmite-se através de academias, escolas e centros equestres, em Portugal e em mais de vinte países, complementado por tratados, livros e manuais.

Um reconhecimento construído por etapas

O processo de candidatura, iniciado em 2015, resultou de uma parceria entre a Associação Portuguesa de Criadores do Cavalo Puro-Sangue Lusitano, a Parques de Sintra — Monte da Lua, que gere a EPAE, e o município da Golegã. Em 2021, a arte equestre foi integrada no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial, etapa exigida pela legislação portuguesa para qualquer candidatura à Convenção de 2003 e passo prévio à inscrição internacional.

Mais do que um espetáculo, a distinção valoriza um saber-fazer transmitido entre gerações, em que a técnica, a criação animal e a memória histórica se mantêm indissociáveis. A par de outras expressões vivas como a falcoaria e o cante alentejano, a arte equestre reforça a presença portuguesa no Património Mundial e Imaterial da UNESCO.

Perguntas frequentes

Quando foi a arte equestre em Portugal inscrita na UNESCO?
Foi inscrita na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade em dezembro de 2024, pela 19.ª sessão do Comité Intergovernamental, reunida em Assunção, no Paraguai (decisão 19.COM 7.b.2, referência 02079).
Qual é o cavalo associado à arte equestre portuguesa?
O Puro-Sangue Lusitano, raça flexível, dócil e reativa às ajudas do cavaleiro, que está no centro desta tradição e da chamada equitação 'à Marialva'. A Escola Portuguesa de Arte Equestre monta cavalos da linhagem da Coudelaria de Alter, em Alter do Chão.
O que é a Picaria Real?
Foi a academia equestre da corte portuguesa nos séculos XVIII e início do XIX. A Escola Portuguesa de Arte Equestre, fundada em 1979, continua o seu legado, preservando o mesmo tipo de cavalo, os mesmos arreios e os mesmos trajes.
Onde se pode ver a arte equestre portuguesa?
A Escola Portuguesa de Arte Equestre, sediada no Palácio Nacional de Queluz, apresenta espetáculos e treinos públicos; a tradição manifesta-se também em romarias e feiras como a Feira Nacional do Cavalo, na Golegã.

Fontes

  1. UNESCO — Equestrian art in Portugal (RL/02079)
  2. UNESCO — Decisão 19.COM 7.b.2
  3. Comissão Nacional da UNESCO — Arte Equestre em Portugal
  4. Parques de Sintra — Classificação da arte equestre portuguesa pela UNESCO