Períodos & Estilos

Arte e Arquitetura Islâmica no Gharb al-Andalus

Arte e arquitetura islâmica no Gharb al-Andalus: castelos, cerâmica, urbanismo e o legado andalusi que moldou o sul de Portugal entre 711 e 1249.

Entre 711 e 1249, o sul do atual território português integrou o Gharb al-Andalus, o extremo ocidental do mundo islâmico peninsular. Durante mais de cinco séculos, cidades como Lisboa (al-Uśbuna), Santarém (Xantarīn), Mértola (Mārtula), Silves (Xilb) e Faro foram polos de uma civilização urbana, agrária e mercantil que deixou marcas profundas na paisagem, na língua e na cultura material do país. A arte islâmica do Gharb não foi um episódio periférico: foi a matriz de toda uma forma de habitar e organizar o espaço a sul do Mondego.

Urbanismo e arquitetura

A cidade andalusi articulava-se em torno da medina (almedina), com a sua mesquita aljama, o mercado e os banhos, protegida por muralhas e dominada por uma cidadela fortificada, a alcáçova. As casas, voltadas para um pátio interior e quase cegas para o exterior, alinhavam-se ao longo de ruas estreitas e sinuosas — os adarves — que garantiam a privacidade familiar. Esta lógica de traçado sobrevive ainda hoje no casario branco de muitos centros históricos do sul.

A construção recorria sobretudo à taipa (terra compactada) e ao adobe, por vezes reforçados com pilares de alvenaria. O elemento mais reconhecível é o arco em ferradura, herdado da tradição visigótica e adotado como imagem por excelência da arquitetura muçulmana na Península. A arquitetura militar atingiu grande refinamento nas linhas defensivas que ainda estruturam povoações como Silves e a sua arqueologia islâmica ou os núcleos urbanos do Algarve.

O mihrab da antiga mesquita de Mértola, conservado na atual igreja matriz, é o único nicho de oração islâmico que sobreviveu em Portugal — testemunho raro de como um espaço de culto muçulmano foi reconvertido, e não destruído, após a Reconquista.

Cerâmica e cultura material

Se a arquitetura define a paisagem, é a cerâmica que melhor documenta o quotidiano do Gharb. As escavações nas alcáçovas e alcarias revelaram um repertório abundante de loiça de cozinha e de mesa, com vidrados, decoração a corda seca, motivos geométricos, vegetalistas estilizados e epigráficos. A proibição da imagem figurativa, por receio da idolatria, orientou a ornamentação para a abstração, a caligrafia e os arabescos. Estes materiais constituem hoje o cerne da arqueologia islâmica portuguesa e estão particularmente bem representados em Mértola arqueológica, que reúne o mais importante acervo do país.

A produção oleira andalusi terá ainda influenciado, séculos mais tarde, a tradição azulejar e faiançeira peninsular, num fio de continuidade que liga estas oficinas medievais às correntes posteriores da cerâmica decorativa.

Um legado que permanece

O fim do domínio islâmico não apagou a sua herança. Mais de mil palavras de origem árabe subsistem no português, sobretudo nos domínios da agricultura, da hidráulica e da administração, e inúmeros topónimos — Alfama, Alcácer, Odiana, o próprio Algarve (al-gharb, “o ocidente”) — perpetuam essa memória. Sistemas de rega, técnicas agrícolas, o branco da cal e a planta das povoações são outros tantos traços vivos. Este conjunto integra o mais vasto património mouro e islâmico que distingue o sul peninsular e que se inscreve, dentro do percurso dos períodos e estilos da arte portuguesa, como uma das suas camadas fundadoras.

Compreender o Gharb al-Andalus é, por isso, indispensável para ler corretamente a história longa do território: muito do que parece “tradicional” no Sul de Portugal tem raízes nesta civilização que aqui floresceu durante mais de quinhentos anos.

Perguntas frequentes

O que foi o Gharb al-Andalus?
Era a designação árabe para o extremo ocidental de al-Andalus, correspondente a grande parte do atual território português a sul do Mondego, sob domínio islâmico entre 711 e 1249.
Onde se conserva o melhor testemunho de arte islâmica em Portugal?
Mértola reúne o acervo mais significativo, incluindo a sua antiga mesquita almóada — hoje igreja matriz — cujo mihrab é o único conservado em território português.
Que técnicas construtivas caracterizam a arquitetura do Gharb?
Predominam a taipa (terra compactada) e o adobe, o arco em ferradura de herança visigótica e a casa de pátio interior organizada em ruas labirínticas, os adarves.

Fontes

  1. Arte islâmica em Portugal — Wikipédia
  2. Gharb al-Andalus — Wikipedia
  3. Mértola Mosque — Discover Islamic Art, Museum With No Frontiers