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Azulejo de Fachada
O azulejo de fachada revestiu milhares de edifícios urbanos portugueses no século XIX, do Porto a Lisboa, num diálogo entre Portugal e o Brasil.
O azulejo de fachada é uma das marcas mais reconhecíveis da paisagem urbana portuguesa: milhares de edifícios do Porto, de Lisboa, de Aveiro, de Ovar ou de Viana do Castelo apresentam-se inteiramente revestidos de cerâmica vidrada, com padrões repetidos que jogam com a luz, a cor e o reflexo. Trata-se de um fenómeno essencialmente oitocentista, que retirou o azulejo do interior de igrejas e palácios — onde reinara desde o século XVI — e o transferiu para o exterior da casa corrente, ao serviço de uma cidade nova, burguesa e industrial.
Origem e a questão dos “brasileiros”
A generalização das fachadas azulejadas situa-se algures entre as décadas de 1830 e 1840, ganhando enorme escala na segunda metade do século. A explicação tradicional aponta para os chamados “brasileiros” — emigrantes portugueses enriquecidos no Brasil que, após a independência da antiga colónia em 1822, regressaram e teriam importado um hábito construtivo mais comum do outro lado do Atlântico, onde a cerâmica protegia já as paredes exteriores contra a humidade.
A investigação mais recente matiza este relato. O gosto pelo revestimento exterior afirmou-se sobretudo como um fenómeno urbano e cosmopolita, com forte expressão tanto no Porto como em Lisboa, e nem sempre dependente do regresso individual de emigrantes. O que é seguro é a inversão de um trânsito artístico: durante séculos, Portugal exportara azulejo para o Brasil; no século XIX, a moda das fachadas revestidas atravessa as duas margens do Atlântico em diálogo constante.
O azulejo de fachada não foi apenas decoração: foi a primeira resposta de massas a um problema concreto — proteger e dignificar, a baixo custo, a fachada da casa burguesa numa cidade em rápido crescimento.
A produção industrial
O sucesso do azulejo de fachada deve-se à industrialização da cerâmica. O recurso a técnicas semi-industriais, sobretudo a estampilhagem e a prensagem mecânica com matrizes metálicas importadas, permitiu produzir em massa o azulejo de padrão, de baixo custo, capaz de cobrir paredes inteiras com cercaduras a delimitar portas e janelas.
No Porto e em Vila Nova de Gaia floresceram fábricas como Massarelos, Miragaia, Carvalhinho e Santo António do Vale da Piedade. Entre todas destacou-se a Fábrica de Cerâmica das Devesas, fundada em meados da década de 1860 em Gaia, que se tornou a maior produtora nacional de cerâmica aplicada à arquitetura e dominou o setor até cerca de 1915. Em Lisboa e arredores, produziram para fachada a Viúva Lamego, a Fábrica da Roseira, a Constância e a grande Fábrica de Sacavém. Esta densa rede fabril explica por que motivo o Norte e a capital se tornaram os dois grandes polos do revestimento azulejar exterior.
Estilos, declínio e proteção
Os primeiros revestimentos recorreram a padrões geométricos e florais de raiz romântica, próximos da tradição do azulejo azul e branco, mas rapidamente se diversificaram com relevos, biséis e policromias intensas. Na viragem do século, o gosto da Arte Nova renovou o repertório, com painéis figurativos e composições de inspiração vegetalista que ainda hoje pontuam ruas inteiras.
Ao longo do século XX, muitas fachadas degradaram-se ou foram destruídas, e a venda de azulejos antigos alimentou um comércio que esvaziou edifícios inteiros. A consciencialização patrimonial, impulsionada por movimentos como o SOS Azulejo, culminou na Lei n.º 79/2017, que passou a sujeitar a licenciamento a remoção de azulejos de fachada. Hoje, este património é estudado e divulgado por instituições como o Museu Nacional do Azulejo, e o seu valor reconhece-se à escala da cidade — como no centro histórico do Porto, onde a azulejaria de fachada é parte indissociável da identidade visual classificada pela UNESCO.
Perguntas frequentes
- O que distingue o azulejo de fachada do azulejo tradicional?
- Ao contrário do azulejo de interior, pensado para igrejas e palácios, o azulejo de fachada cobre o exterior dos edifícios. Produzido em série e em padrão repetido, destinava-se à arquitetura corrente da cidade burguesa oitocentista.
- Foram os emigrantes do Brasil que trouxeram o azulejo de fachada?
- A tradição atribui o hábito aos "brasileiros", emigrantes regressados após a independência do Brasil em 1822. A investigação recente matiza esta ideia: o gosto foi sobretudo urbano e português, com forte expressão tanto em Lisboa como no Porto.
- O azulejo de fachada está protegido por lei em Portugal?
- Sim. A Lei n.º 79/2017, de 18 de agosto, sujeita a licenciamento municipal as obras que impliquem a remoção de azulejos de fachada, travando décadas de destruição deste património.