Arqueologia

Citânia de Sanfins

Citânia de Sanfins, grande oppidum castrejo de Paços de Ferreira com triplo recinto amuralhado, balneário e o Guerreiro de Sanfins.

Citânia de Sanfins
Lídia Maria Faria, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

A Citânia de Sanfins é um dos maiores e mais bem estudados povoados fortificados da Idade do Ferro do Noroeste peninsular. Implantada no cume de um monte da serra da Lixa, na freguesia de Sanfins de Ferreira (Paços de Ferreira, distrito do Porto), domina um vasto horizonte sobre o vale do Sousa e constituiu, na sua fase de apogeu, uma autêntica capital regional da cultura castreja. Classificada como monumento nacional desde 1946, a citânia estende-se por mais de quinze hectares e revela, na sua organização, o grau de complexidade que estas comunidades atingiram nos séculos que antecederam e acompanharam a romanização.

Um oppidum de triplo recinto

O traço mais marcante de Sanfins é o seu sistema defensivo, formado por três linhas concêntricas de muralhas de blocos graníticos, reforçadas a norte e a sul por fossos escavados na rocha. Dentro deste perímetro desenvolveu-se um aglomerado denso, com cerca de 160 construções identificadas — na sua maioria casas circulares de planta única, com aproximadamente cinco metros de diâmetro, mas também edifícios de planta quadrangular de influência mais tardia.

As habitações organizam-se em quarteirões ou núcleos familiares de quatro a cinco unidades dispostas em torno de pátios comuns, servidos por um traçado viário de tipo ortogonal, com uma artéria principal no sentido norte-sul cruzada por ruas secundárias. Esta regularidade urbanística aproxima Sanfins dos grandes oppida do mundo castrejo e distingue-a dos povoados de menor dimensão e organização mais espontânea.

O desenho regular das ruas e a articulação dos bairros em torno de pátios mostram que, em Sanfins, a vida comunitária se sobrepunha à simples justaposição de casas: estamos perante uma verdadeira cidade proto-histórica.

O balneário e a Pedra Formosa

Entre os edifícios singulares destaca-se o balneário castrejo, ainda hoje abastecido por uma nascente natural. Trata-se de um espaço dedicado ao banho ritual e de vapor, com forno de aquecimento, câmara de sauna, antecâmara de arrefecimento e tanques de imersão. O acesso ao compartimento mais interior fazia-se através de uma Pedra Formosa — laje monolítica decorada com motivos geométricos, abrindo um vão baixo que obrigava o utente a entrar de gatas, num gesto carregado de simbolismo. Estes monumentos com bacia são uma das criações mais originais do mundo castrejo do Entre-Douro-e-Minho, podendo conhecer-se melhor a sua função e tipologia na página dedicada à Pedra Formosa e aos balneários castrejos.

Escavações, romanização e o Guerreiro

Os primeiros trabalhos arqueológicos em Sanfins remontam a 1895, por iniciativa de Francisco Martins Sarmento, mas foi a partir de 1944, com as campanhas dirigidas por Eugénio Jalhay e, sobretudo, por Afonso do Paço entre 1946 e 1967, que o povoado foi sistematicamente posto a descoberto. As investigações revelaram uma ocupação que se prolongou ao longo de vários séculos, do período pré-romano até à plena integração no mundo romano, altura em que se introduzem novas tipologias construtivas sem que o sítio perca a sua matriz indígena.

Junto a uma das entradas foram encontradas as marcas dos pés de uma estátua de guerreiro fincada na rocha — testemunho da célebre estatuária de guerreiros galaico-lusitanos. O Guerreiro de Sanfins, com o seu escudo redondo (caetra) e punhal, tornou-se um dos ícones da Idade do Ferro portuguesa, e no local foi colocada uma réplica que evoca a vigilância simbólica sobre o acesso ao povoado.

Pela sua monumentalidade e estado de conservação, Sanfins dialoga diretamente com outros grandes povoados do Norte, como a Citânia de Briteiros, em Guimarães, e o Monte Mozinho, em Penafiel, formando um conjunto incontornável para compreender a transição entre a sociedade indígena e a ordem romana no Noroeste peninsular. Os materiais recolhidos — cerâmica, ourivesaria, instrumentos metálicos e elementos de estatuária — encontram-se hoje reunidos no Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins, instalado no centro da freguesia.

Perguntas frequentes

Onde fica a Citânia de Sanfins?
Situa-se na freguesia de Sanfins de Ferreira, no concelho de Paços de Ferreira, distrito do Porto, ocupando o cume de um monte da serra da Lixa.
Que é o Guerreiro de Sanfins?
É uma estátua de guerreiro galaico-lusitano encontrada no povoado, hoje símbolo da estatuária castreja. No local foi colocada uma réplica, junto às rochas que dominam uma das entradas.
A Citânia de Sanfins pode ser visitada?
Sim. O povoado está aberto ao público e os achados arqueológicos estão expostos no Museu Arqueológico da Citânia de Sanfins, no centro da freguesia.

Fontes

  1. Citânia de Sanfins — Wikipédia
  2. SIPA — Citânia de Sanfins (n.º 5093)
  3. Citânia de Sanfins — e-cultura