Arqueologia
Pedra Formosa e balneários castrejos
Os balneários-sauna da cultura castreja e as suas pedras formosas decoradas, monumentos com forno do noroeste peninsular na Idade do Ferro.
Entre os testemunhos mais singulares da cultura castreja do noroeste da Península Ibérica encontram-se os chamados balneários-sauna, ou monumentos com forno, e as suas notáveis pedras formosas. Construídos durante a Idade do Ferro, entre sensivelmente o século V a.C. e o início da era romana, estes edifícios destinavam-se a banhos de vapor e de água, antecipando em séculos os hábitos termais que os Romanos viriam a generalizar. Conhecem-se hoje cerca de três dezenas de exemplares dispersos pelo território que vai do rio Douro à Galiza, o que faz deles uma das expressões arquitetónicas mais coerentes e enigmáticas das comunidades castrejas.
A arquitetura do banho
Um balneário castrejo organiza-se tipicamente em compartimentos sucessivos, dispostos em eixo. Um átrio ou vestíbulo, por vezes dotado de um tanque onde corria água, servia para os banhos frios; seguia-se uma antecâmara de transição e, ao fundo, a câmara de vapores, aquecida a partir de um forno de planta circular e falsa cúpula, parcialmente enterrado, onde se faziam arder lenha e pedras incandescentes. A separação entre a câmara quente e os espaços anteriores era assegurada por um grande monólito vertical — a pedra formosa — atravessado por uma abertura baixa, em forma de portinhola, que obrigava quem entrava a baixar-se para aceder ao recinto mais íntimo do edifício.
A passagem estreita da pedra formosa não era apenas um detalhe construtivo: marcava o limiar entre o mundo comum e um espaço de transformação, sugerindo que o banho tinha tanto de higiénico como de ritual.
A decoração e o seu simbolismo
O que distingue a pedra formosa de uma simples laje é a sua decoração em baixo-relevo. Sobre a superfície granítica desdobram-se motivos geométricos — triângulos, círculos concêntricos, cordões, sogas e composições em rede — que organizam a fachada em registos e enquadram a abertura central. O significado destes programas decorativos permanece em debate, mas a sua associação à água, ao fogo e ao vapor levou os investigadores a relacioná-los com cultos de divindades aquáticas e com a ideia de purificação e cura. O carácter sagrado destes lugares é hoje uma das hipóteses mais discutidas pela arqueologia, sem que exista consenso definitivo.
Os principais exemplares
O exemplar mais emblemático provém da Citânia de Briteiros, em Guimarães: um bloco de granito com cerca de três metros de largura e mais de dois de altura, pesando aproximadamente cinco toneladas, hoje conservado no Museu da Cultura Castreja, em Briteiros. Foi a partir de descobertas como esta que Francisco Martins Sarmento, no último quartel do século XIX, lançou as bases do estudo destes monumentos. Também a Citânia de Sanfins, em Paços de Ferreira, possui um balneário notável pela sua técnica construtiva, e o Castro das Eiras, em Vila Nova de Famalicão, identificado por Sarmento em 1880, integra um conjunto da mesma natureza.
Mais a sul, em Tongóbriga (Marco de Canaveses), foi escavado um balneário com pedra formosa que acabou soterrado pela construção das termas romanas, ilustrando a continuidade e a sobreposição de práticas balneares entre o mundo castrejo e o romano. Esta convivência sublinha o lugar destes edifícios na longa história do termalismo peninsular e o seu interesse para a compreensão das sociedades da arqueologia portuguesa anteriores à romanização.
Perguntas frequentes
- O que é uma pedra formosa?
- É um monólito de pedra, geralmente granito e decorado com gravuras em baixo-relevo, que separava os compartimentos de um balneário castrejo e dava acesso, por uma pequena abertura, à câmara de banhos quentes e vapores.
- Para que serviam os balneários castrejos?
- Eram estruturas de banhos de vapor e de água, semelhantes a saunas, usadas pelas comunidades da Idade do Ferro do noroeste peninsular, possivelmente em rituais de purificação ligados ao culto da água.
- Onde se pode ver a pedra formosa mais conhecida?
- A pedra formosa mais célebre provém da Citânia de Briteiros, em Guimarães, e está hoje exposta no Museu da Cultura Castreja, em Briteiros.