Períodos & Estilos
Cultura Castreja e a Arquitetura dos Castros
A cultura castreja da Idade do Ferro no noroeste peninsular: castros e citânias, casas de planta circular, balneários, ourivesaria e estatuária dos guerreiros…
A cultura castreja designa o conjunto de tradições materiais e formas de habitar que, durante a Idade do Ferro, marcou o noroeste da Península Ibérica — grosso modo, o território entre os rios Douro e Minho, prolongando-se pela Galiza e por parte das Astúrias e do ocidente de Leão. O seu nome deriva do tipo de povoado que a define: o castro, um aglomerado fortificado implantado em lugares altos e defensáveis, de onde se dominava o vale e os campos de cultivo. Formada a partir de um substrato atlântico do final da Idade do Bronze, com primeiras manifestações já no século IX a.C., a cultura castreja conhece o seu apogeu entre os séculos III a.C. e I d.C., prolongando-se na chamada fase galaico-romana, quando entra em contacto e, por fim, em dissolução com o mundo de Roma.
Os castros: implantação e defesa
O castro é, antes de tudo, uma resposta ao território e à insegurança. Escolhiam-se esporões, outeiros e cabeços de encosta abrupta, reforçados por uma ou mais linhas de muralha — frequentemente três, por vezes quatro — que envolviam o povoado de forma concêntrica. As muralhas, em pedra seca de paramentos paralelos com enchimento de terra e blocos, articulavam-se com fossos e, em certos casos, com campos de pedras fincadas que dificultavam o assalto. A densidade destes sítios é notável: o Alto Minho conta-se entre as áreas mais densamente “castrejas” de toda a Península. Embora a maioria correspondesse a comunidades de algumas dezenas ou centenas de pessoas, os maiores povoados evoluíram para verdadeiras aglomerações proto-urbanas, as citânias, com arruamentos ordenados, sistemas de escoamento de águas e cisternas — sinais de um planeamento que antecipa a cidade.
A casa circular e o espaço doméstico
O elemento mais reconhecível da arquitetura castreja é a casa de planta circular. Erguida em pedra seca — granito nas zonas graníticas, xisto a oriente —, tinha cobertura cónica de colmo sustentada por um poste central e media, em regra, entre três e dez metros de diâmetro. Nas fases iniciais estas habitações dispersavam-se de modo aparentemente desordenado; com o tempo, sobretudo na fase final, organizam-se em pátios fechados que reúnem várias unidades — habitação, armazém, cozinha — em torno de um espaço comum, indício de uma família alargada e de uma crescente complexidade social. A leitura tradicional de uma sociedade igualitária tem sido matizada: a diferença de dimensões entre casas e o acesso desigual a bens de prestígio sugerem a formação de grupos privilegiados.
A passagem do colmo e da madeira para a pedra acompanha a generalização das ferramentas de ferro: foi o novo metal que permitiu lavrar o granito e fixar em construção durável aquilo que antes era perecível.
Os exemplos mais eloquentes desta arquitetura conservam-se em estações como a Citânia de Briteiros, em Guimarães, e a Citânia de Sanfins, em Paços de Ferreira, onde se observam ruas, casas reconstruídas e os característicos balneários castrejos — espaços de banho e vapor cuja câmara interior se separava por uma laje monumental, a pedra formosa, ornamentada com motivos geométricos. Mais a sul, o Castro de Monte Mozinho, em Penafiel, mostra a expansão tardia destes povoados e a sua continuidade já em pleno período romano.
Arte, símbolos e fim de um mundo
A criatividade castreja exprimiu-se sobretudo na ourivesaria — torques, arrecadas e braceletes de ouro de extraordinária qualidade — e numa decoração de gosto abstrato, com rosetas, triskéis, espirais, suásticas e tranças que percorrem pedras, cerâmica e metal. Da estatuária destacam-se os guerreiros galaicos, figuras pétreas de homens armados com escudo redondo e punhal, expressão de uma elite militar e da memória do grupo. Inserida no quadro mais amplo da Idade do Ferro do noroeste, a cultura castreja não desaparece de forma abrupta: a conquista romana destruiu e despovoou muitos castros, mas integrou e transformou outros, que se romanizaram conservando traços próprios. Hoje, estes povoados constituem um capítulo essencial dos grandes períodos e estilos da arquitetura em Portugal, testemunho de uma civilização da pedra anterior à cidade clássica.
Perguntas frequentes
- O que é a cultura castreja?
- É a cultura material dos povoados fortificados de altura — os castros — que se desenvolveu na Idade do Ferro no noroeste da Península Ibérica, abrangendo o norte de Portugal, a Galiza e parte das Astúrias e de Leão. Caracteriza-se por casas de planta circular em pedra, muralhas concêntricas, balneários rituais, ourivesaria e estatuária de guerreiros.
- Como eram as casas dos castros?
- Eram predominantemente de planta circular ou oval, construídas em pedra seca — granito a norte, xisto a leste — com cobertura cónica de colmo assente num poste central. Tinham em geral entre três e dez metros de diâmetro e agrupavam-se em pátios familiares, fenómeno que se acentua nas grandes citânias.
- O que distingue um castro de uma citânia?
- Ambos são povoados fortificados, mas a designação citânia reserva-se aos grandes aglomerados proto-urbanos da fase final, com vários milhares de habitantes, ruas ordenadas, redes de drenagem e bairros de casas, como a Citânia de Briteiros ou a de Sanfins.