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Faiança de Coimbra

A faiança de Coimbra, da louça azul e branca seiscentista às peças ditas «ratinho» do século XIX, um dos grandes centros oleiros de Portugal.

A faiança de Coimbra é uma das mais longas e prestigiadas tradições oleiras de Portugal, abrangendo quase quatro séculos de produção de louça de barro com vidrado estanífero. Centro privilegiado pela sua localização — junto ao Mondego, que ligava o interior ao litoral e às rotas comerciais — a cidade reuniu uma vasta comunidade de oleiros cuja obra evoluiu da erudita louça azul e branca do Seiscentos até à popularíssima faiança dita «ratinho» do século XIX. A referência documental mais antiga ao seu fabrico data de 1603, embora a olaria coimbrã esteja atestada desde o início do século XVI.

Da louça azul seiscentista ao «ouro» setecentista

Na primeira metade do século XVII, a faiança portuguesa afirmou-se pela adaptação original de motivos ornamentais orientais, pintados a azul de cobalto sobre fundo branco, no que constituiu uma resposta europeia à porcelana chinesa importada pela Companhia das Índias. A primeira fábrica de faiança de Coimbra, instalada no Terreiro da Erva, no centro da cidade, remonta a esta centúria; algumas das suas peças conservam-se hoje no Museu Nacional de Machado de Castro. A par desta produção, desenvolveu-se também a tradição do azulejo de padrão seiscentista, que partilhava oficinas e pintores com a louça de mesa.

A primeira metade do século XVIII foi a idade de ouro da faiança coimbrã. As oficinas multiplicaram-se e a louça exportava-se para o Algarve e até para Inglaterra. Desta fase é célebre o estilo atribuído à família Brioso, dinastia de oleiros aparentada com os Paiva e os Leal, que pintava pratos a azul e branco com temas centrais inspirados no azulejo de figura avulsa. A identificação de peças permanece, porém, difícil: os oleiros raramente assinavam a sua obra, e modelos semelhantes circulavam entre as várias oficinas familiares do Antigo Regime.

A faiança de Coimbra distingue-se por ter atravessado, sem rutura, a passagem da louça de aparato à louça de uso popular — uma continuidade rara no panorama oleiro europeu.

Ao longo do século XVIII, a decoração foi-se libertando do centro do prato, alastrando a toda a superfície com a técnica da pintura a esponja. Desta evolução nasceu a faiança «ratinho», que dominou o século XIX coimbrão e se prolongou pelo início do XX. Decorada com motivos florais, peixes, aves, camponeses, músicos, pescadores e pastores, esta louça barata e alegre — por vezes chamada «troca-trapos» — deve o nome aos ratinhos, os trabalhadores beirões que migravam sazonalmente para as searas do Ribatejo e do Alentejo e desejavam ter prato próprio à mesa dos latifúndios. Em 1886, existiam onze fábricas de cerâmica em Coimbra, produzindo simultaneamente o «ratinho» e a faiança fina ainda hoje reconhecida.

Significado e continuidade

A faiança coimbrã insere-se na grande história da cerâmica e faiança portuguesa e ocupa lugar próprio entre as artes decorativas portuguesas, a par da prata, do mobiliário e do azulejo. A sua produção mais corrente, a louça de Coimbra, continua a ser feita por um pequeno número de artesãos que preservam a pintura tradicional do prato «ratinho», assegurando a transmissão de um saber-fazer secular. Na cidade que é também sede da Universidade de Coimbra, o Museu Nacional de Machado de Castro guarda as testemunhas mais antigas desta arte, permitindo seguir, peça a peça, a evolução de uma das mais ricas tradições cerâmicas do país.

Perguntas frequentes

Quando começou a produção de faiança em Coimbra?
A referência documental mais antiga à produção de faiança em Coimbra data de 1603, embora o fabrico possa ter começado alguns anos antes, dada a tradição oleira da cidade bem documentada desde o início do século XVI.
O que é a louça «ratinho»?
É a faiança popular que dominou a produção coimbrã do século XIX, decorada a esponja com motivos florais, peixes, aves e figuras de camponeses. Deve o nome aos «ratinhos», trabalhadores beirões que migravam sazonalmente para o Ribatejo e o Alentejo e a usavam à mesa.
Onde se podem ver coleções de faiança de Coimbra?
O Museu Nacional de Machado de Castro, na própria cidade, conserva um dos mais importantes conjuntos de faiança azul portuguesa dos séculos XVII e XVIII, incluindo peças oriundas das primeiras oficinas coimbrãs.

Fontes

  1. Câmara Municipal de Coimbra – Faiança
  2. Museu Nacional de Machado de Castro
  3. Estudo decorativo, morfológico e tecnológico da faiança de Coimbra (RCAAP)