Património Imaterial
Festas de São João do Porto
As Festas de São João do Porto, a maior noite da Invicta, celebram-se de 23 para 24 de junho com martelos, manjericos, cascatas, sardinha e fogo de artifício.
As Festas de São João do Porto são a mais intensa celebração popular da cidade, vivida na rua durante a noite de 23 para 24 de junho. Embora dedicada a São João Baptista, a festa enraíza-se em rituais muito mais antigos ligados ao solstício de verão, à fertilidade e à fartura das colheitas — uma herança pagã que a Igreja cristianizou, fixando a data no calendário do santo. As primeiras referências documentais aos festejos joaninos no Porto remontam ao século XIV, surgindo na crónica de Fernão Lopes, mas só no século XX o 24 de junho passou a ser consagrado como feriado municipal da Invicta.
Uma noite na rua
O São João é, antes de tudo, uma festa de proximidade e de partilha. Nessa noite, ruas e becos enchem-se de gente, fumo de sardinha assada e cheiro a manjerico. Bate-se levemente na cabeça de quem passa, gesto que outrora se fazia com o alho-porro e que, desde meados do século XX, se faz sobretudo com martelos de plástico coloridos munidos de apito — um adereço inventado localmente que se tornou ex-líbris da festa. Saltam-se fogueiras nos bairros mais tradicionais, soltam-se balões (hoje desencorajados e proibidos por causa dos incêndios que provocavam) e oferecem-se vasos de manjerico encimados por uma bandeirinha com versos populares.
Mais do que um espetáculo, o São João é uma liturgia urbana: a cidade inteira sai de casa, ocupa a via pública e transforma-a, por uma noite, num imenso espaço de convívio sem hierarquias.
À meia-noite, o grande fogo de artifício lançado sobre o rio Douro reúne multidões nas duas margens e nas pontes, num dos momentos mais identitários da festa. A celebração prolonga-se depois madrugada fora, com bailaricos, arraiais e a tradicional caminhada até à praia da Foz ou de Matosinhos para ver o nascer do sol.
Símbolos e gastronomia
A mesa sanjoanina é parte essencial do ritual: a sardinha assada na brasa, o caldo verde, a broa de milho e a carne grelhada acompanham a noite, regados a vinho da região. As cascatas — pequenos cenários domésticos, parentes do presépio mas próprios deste tempo, com figuras, água e a imagem do santo — montam-se em janelas, soleiras e capelas, e percorrem-se de porta em porta. O manjerico, planta aromática de folha miúda, é oferecido como prenda e símbolo de afeto, frequentemente acompanhado de quadras populares.
Um património vivo do Norte
As Festas de São João inscrevem-se na grande família dos santos populares celebrados em Portugal no mês de junho, a par das Festas de Santo António de Lisboa. Distinguem-se, contudo, pela sua escala e pela apropriação plena do espaço público no centro histórico do Porto, classificado pela UNESCO. Festa simultaneamente religiosa, profana e cívica, o São João resiste como uma das mais vigorosas expressões do património cultural imaterial português, transmitida de geração em geração e reinventada a cada ano sem perder o seu carácter comunitário.
Perguntas frequentes
- Quando se celebra o São João do Porto?
- A festa decorre na noite de 23 para 24 de junho, véspera e dia de São João Baptista. O 24 de junho é feriado municipal na cidade do Porto.
- Porque é que as pessoas se batem na cabeça com martelos no São João?
- O martelo de plástico com apito é um adereço criado nos anos 1960 que substituiu o tradicional alho-porro, usado antigamente para uma pancada simbólica e brincalhona na cabeça de quem passava.
- O que são as cascatas sanjoaninas?
- São pequenos cenários domésticos, próximos do presépio mas próprios do São João, montados em casas e ruas com figuras, água corrente e a imagem do santo, e visitados de porta em porta.