Arqueologia
Gruta do Escoural
Gruta do Escoural, em Montemor-o-Novo: a única gruta de Portugal com arte rupestre paleolítica, depois reutilizada como necrópole neolítica no Alentejo.
A Gruta do Escoural é uma cavidade natural escavada em mármores cristalinos do Alentejo Central, situada na Herdade da Sala, junto à povoação de São Brissos, na freguesia de Santiago do Escoural, concelho de Montemor-o-Novo. Constitui um caso singular no panorama arqueológico português: é, até ao momento, a única gruta conhecida no país com arte rupestre do Paleolítico Superior no seu interior, o que a coloca em diálogo direto com os grandes santuários cavernícolas da Europa Ocidental. Foi classificada como Monumento Nacional em 1963, o mesmo ano em que veio à luz.
Uma descoberta acidental
O acesso atual ao subterrâneo resultou de um acontecimento fortuito. Na tarde de 17 de abril de 1963, uma explosão numa pedreira de mármore em laboração rasgou a rocha e abriu inesperadamente a entrada para um complexo de galerias até então selado. O reconhecimento científico que se seguiu, conduzido por arqueólogos como Henri Breuil e, sobretudo, pelos trabalhos posteriores de Manuel Farinha dos Santos, confirmou a existência de figurações parietais e de níveis arqueológicos de grande profundidade cronológica. A gruta desenvolve-se em vários planos, articulando dezenas de galerias, salas e corredores parcialmente obstruídos por espessas concreções estalagmíticas.
A arte do Paleolítico
No interior, gravuras e pinturas distribuem-se por dois grandes conjuntos: motivos zoomórficos — com destaque para cavalos e bovídeos — e signos geométricos abstratos. As representações inscrevem-se no Paleolítico Superior, com balizas cronológicas situadas grosso modo entre os 25 000 e os 12 000 anos a.C., revelando paralelos estilísticos com estações francas, espanholas e italianas. Esta filiação europeia faz do Escoural um elo raro entre a arte das cavernas franco-cantábrica e o extremo ocidental da Península Ibérica.
A existência de arte rupestre paleolítica em gruta, no Sul de Portugal, demonstra que o santuário cavernícola do Paleolítico não foi um fenómeno exclusivo dos Pirenéus e da Cantábria, prolongando-se até ao litoral atlântico.
Os vestígios de ocupação humana são, contudo, ainda mais antigos do que a arte: restos faunísticos associados à caça de uros, veados e cavalos remetem já para o Paleolítico Médio, demonstrando uma frequentação muito recuada do local. Para compreender o quadro mais vasto desta produção figurativa pode consultar-se a página sobre a arte rupestre paleolítica e o panorama geral do Paleolítico em território português.
Da gruta ao túmulo: a necrópole neolítica
Milénios mais tarde, a cavidade conheceu uma segunda vida. Durante o Neolítico, comunidades de agricultores e pastores reutilizaram o espaço subterrâneo como necrópole, depositando os seus mortos entre cerca de 5000 e 3000 a.C. Esta dupla função — santuário paleolítico e espaço funerário neolítico — torna o Escoural um documento excecional sobre a longa duração da relação humana com o mundo subterrâneo no Alentejo, uma região marcada também por imponentes monumentos megalíticos a céu aberto, como o Cromeleque dos Almendres.
Visita e musealização
A gruta integra-se no rico território arqueológico de Montemor-o-Novo e dispõe de um Centro de Interpretação inaugurado em 2011, na sequência de obras de requalificação que protegeram as condições ambientais do interior e dotaram o monumento de percursos e iluminação adequados à fruição pública. Pela fragilidade das pinturas e do equilíbrio microclimático, o acesso ao interior é controlado e condicionado, sendo o Centro de Interpretação o ponto de partida para conhecer este testemunho único da pré-história portuguesa.
Perguntas frequentes
- Onde fica a Gruta do Escoural?
- Situa-se na Herdade da Sala, junto a São Brissos, na freguesia de Santiago do Escoural, concelho de Montemor-o-Novo, distrito de Évora, no Alentejo Central.
- Porque é a Gruta do Escoural tão importante?
- É, até hoje, a única gruta conhecida em Portugal com arte rupestre paleolítica no seu interior, com gravuras e pinturas de cavalos e bovídeos do Paleolítico Superior.
- Como foi descoberta a gruta?
- Foi revelada em 17 de abril de 1963 por uma explosão numa pedreira de mármore, que abriu acesso às galerias subterrâneas.