Património Imaterial

Guitarra Portuguesa

A guitarra portuguesa, cordofone periforme de doze cordas que dá voz ao fado de Lisboa e de Coimbra, e a arte da sua construção.

Guitarra Portuguesa
Feliciano Guimarães, CC BY 3.0 — Wikimedia Commons

A guitarra portuguesa é um cordofone dedilhado de caixa periforme e doze cordas metálicas, reconhecível pela sua sonoridade cristalina e profundamente associado ao fado. Mais do que um instrumento, tornou-se um símbolo nacional: a sua voz timbrada acompanha e responde ao canto, tecendo os contracantos e variações que dão ao fado a sua expressividade característica.

Origem e construção

Apesar do nome, a guitarra portuguesa não descende da guitarra clássica, mas do cistre renascentista europeu — uma família de instrumentos de cordas metálicas dedilhadas, presente na música de corte entre meados do século XVI e finais do XVIII. Foi em Portugal que esta linhagem encontrou continuidade e forma própria, fixando, ao longo do século XIX, a silhueta periforme que hoje se reconhece.

As doze cordas organizam-se em seis ordens — seis pares afinados em uníssono ou em oitava. O número de trastes variava entre doze e dezassete nos exemplares mais antigos, chegando aos vinte e dois nos instrumentos modernos. A peça mais distintiva é o mecanismo de afinação em forma de leque (por vezes chamado preferatura), um conjunto de parafusos sem-fim alojado na cabeça do instrumento, que permite uma afinação fina e estável das cordas de aço.

A construção da guitarra portuguesa é, ela própria, património: cada instrumento resulta de dezenas de operações manuais — desde a escolha das madeiras à modelação das ilhargas e à montagem do leque — transmitidas por linhagens de oficina.

A arte luthieira concentra-se sobretudo em duas escolas tradicionais: a de Óscar Cardoso, herdeira da oficina da Ericeira, e a da família Grácio, cujo último grande nome, Gilberto Grácio (1936–2021), construiu instrumentos para fadistas e guitarristas de referência. A continuidade deste saber é hoje acompanhada por estruturas como a Oficina de Construção de Guitarras do Museu do Fado.

Os dois modelos: Lisboa e Coimbra

A guitarra portuguesa cristalizou-se em dois modelos regionais. A guitarra de Lisboa é a mais difundida; afina-se, do agudo ao grave, em Si–Lá–Mi–Si–Lá–Ré e remata a cabeça num caracol em voluta. A guitarra de Coimbra, ligada ao fado de Coimbra, é maior, de caixa mais aguçada e escala mais comprida, ajustada ao carácter de balada do repertório académico; afina um tom abaixo (Lá–Sol–Ré–Lá–Sol–Dó) e distingue-se pela lágrima incrustada na cabeça, em vez do caracol.

Esta diferença não é meramente decorativa: o tamanho e a afinação moldam o timbre. A guitarra de Coimbra tende para uma sonoridade mais grave e ampla, a de Lisboa para um brilho mais ágil e ornamental, próprio do diálogo vivo com o fado castiço.

Função musical e legado

No fado, a guitarra portuguesa raramente toca só. Forma um conjunto com a viola de fado — guitarra clássica que assegura o acompanhamento harmónico e rítmico — e, no fado de Lisboa, com a viola baixo. Cabe à guitarra portuguesa o papel melódico de contracanto: pontua os silêncios do fadista, sublinha os versos e abre os característicos preâmbulos instrumentais.

Enquanto instrumento solista, atingiu estatuto de concerto pela mão de guitarristas como Carlos Paredes, que projectaram internacionalmente o seu repertório. Pertence, por direito próprio, à família dos cordofones tradicionais portugueses e integra o património cultural imaterial português, indissociável do fado, que a UNESCO inscreveu em 2011 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.

Perguntas frequentes

Quantas cordas tem a guitarra portuguesa?
Tem doze cordas metálicas dispostas em seis ordens, ou seja, seis pares afinados em uníssono ou em oitava, accionados sobre uma caixa de ressonância periforme.
Qual a diferença entre a guitarra de Lisboa e a de Coimbra?
A de Coimbra é maior, de escala mais longa e afina um tom abaixo; distingue-se também na cabeça, onde ostenta uma lágrima incrustada, enquanto a de Lisboa termina num caracol em voluta.
A guitarra portuguesa descende da guitarra clássica?
Não. Deriva do cistre renascentista europeu, instrumento de cordas metálicas dedilhadas, distinto da viola e da guitarra clássica de cordas de nylon.

Fontes

  1. Guitarra portuguesa — Wikipédia
  2. Museu do Fado — Gilberto Grácio
  3. Casa da Guitarra — Uma introdução à guitarra portuguesa