Monumentos
Igreja de São Martinho de Mouros
A Igreja de São Martinho de Mouros, em Resende, é uma das mais singulares igrejas românicas do vale do Douro, com uma fachada-torre e três naves de invulgar…
Sobre uma encosta da margem sul do Douro, na freguesia que lhe dá o nome, ergue-se uma das mais enigmáticas igrejas do românico português. A Igreja de São Martinho de Mouros, em Resende, distingue-se de todos os outros templos do vale por uma silhueta maciça e verticalizante, dominada por uma robusta fachada-torre que lhe confere, à distância, o aspeto de uma fortaleza de granito escuro. É essa aparente contradição — a de uma igreja que parece um castelo sem nunca o ter sido — que faz dela um monumento sem paralelo no país.
Uma planta sem paralelo
O traço mais notável de São Martinho de Mouros está no seu interior. Em vez do habitual esquema basilical, em que a nave central se eleva muito acima das laterais, o templo apresenta três naves de altura quase idêntica, separadas por arcos quebrados que se sucedem em sentido ascendente. O resultado é um espaço de invulgar desenvolvimento vertical, mais próximo da lógica de uma “igreja-salão” do que do românico corrente, e que confere à construção uma monumentalidade rara à escala de uma paróquia rural.
Uma inscrição com a data de 1217, descoberta numa pedra da capela-mor, assinala o início — ou a conclusão de uma primeira fase — da empreitada, situando a obra em pleno século XIII. O arco triunfal apontado, rasgado por um óculo, enquadra a cabeceira e reforça a verticalidade do conjunto. A ambição do programa original, que previa três naves abobadadas, terá ficado por concluir, mas o que chegou aos nossos dias basta para a inscrever entre os exemplares mais originais da arquitetura românica nacional.
A fachada-torre e o seu enigma
A fachada ocidental, marcadamente defensiva, é delimitada por uma torre de corpo largo e sólido, atravessada pelo portal axial. O seu aspeto fortificado levou durante muito tempo a associá-la a funções militares, mas hoje aceita-se que a defesa do sítio era assegurada pela própria topografia escarpada do vale, que terá inclusive favorecido a tomada do antigo castelo de São Martinho. A torre cumpria, antes, propósitos litúrgicos e simbólicos, afirmando a presença da Igreja sobre o território.
Em São Martinho de Mouros, a aparência guerreira não esconde um castelo, mas sim a vontade de dar à casa de Deus a dignidade e a permanência de uma fortaleza.
Como outros marcos do românico do Norte — entre eles a Igreja do Salvador de Bravães —, o templo integra hoje a Rota do Românico, itinerário que percorre os vales do Sousa, do Tâmega e do Douro.
Transformações e reconhecimento
A construção medieval não permaneceu intocada. Durante a Época Moderna, e sobretudo no período barroco, o interior foi enriquecido com retábulos de talha de estilo nacional e com pinturas atribuídas à oficina dos Mestres de Ferreirim, ativa por volta de 1530. Estas camadas sucessivas, longe de descaracterizarem o monumento, documentam a continuidade do seu uso ao longo de oito séculos.
Classificada como Monumento Nacional em 1922, a Igreja de São Martinho de Mouros permanece um destino de eleição para quem percorre o românico do Norte e procura compreender a diversidade de soluções que os mestres canteiros ensaiaram no vale do Douro. A sua singularidade arquitetónica, conjugada com a paisagem que a envolve, faz dela um dos testemunhos mais surpreendentes da herança medieval da região.
Perguntas frequentes
- Onde fica a Igreja de São Martinho de Mouros?
- Situa-se na freguesia de São Martinho de Mouros, concelho de Resende, distrito de Viseu, na margem sul do vale do Douro, no Norte de Portugal.
- O que torna esta igreja tão singular no românico português?
- A sua planta de três naves de altura quase idêntica, que confere ao interior um invulgar desenvolvimento vertical, e a imponente fachada-torre, fazem dela um caso quase único na arquitetura românica nacional.
- A fachada-torre tinha função militar?
- Apesar do seu aspeto fortificado, a fachada-torre não respondia a necessidades militares; a defesa do sítio era assegurada pela topografia escarpada do vale. A torre cumpria sobretudo funções litúrgicas e simbólicas.
- Quando foi classificada como Monumento Nacional?
- Foi classificada como Monumento Nacional em 1922.