Património Mundial

Arquivos dos Dembos / Ndembu Archives (Memória do Mundo)

Arquivos dos Dembos: cerca de 1160 manuscritos luso-africanos da região dos Dembos, em Angola, inscritos em 2011 no Registo Memória do Mundo da UNESCO.

Os Arquivos dos Dembos (em inglês, Ndembu Archives) constituem um dos mais singulares acervos documentais luso-africanos. Reúnem cerca de 1160 manuscritos em papel, abrangendo do final do século XVII ao início do século XX, produzidos e guardados por autoridades africanas da região dos Dembos, no norte de Angola, pertencentes ao grupo mbundu. Em 2011, este conjunto foi inscrito no Registo da Memória do Mundo da UNESCO, numa candidatura conjunta apresentada por Portugal e Angola — o programa documental que reconhece acervos de valor universal, distinto da Lista do Património Mundial.

Um arquivo africano escrito

A particularidade destes documentos reside na apropriação da escrita por povos africanos de tradição oral em quimbundo. Os sobas e autoridades dos Dembos — entre eles linhagens como a do Caculo Cacahenda — mantiveram, ao longo de gerações, verdadeiros arquivos de Estado, correspondendo-se em português com as autoridades coloniais sediadas em Luanda, mas também entre si e com o rei do Congo. Trata-se, assim, de um testemunho raro da transição de uma cultura oral para o registo escrito, e de uma rede diplomática gerida pelos próprios chefes africanos.

Os Dembos não foram apenas objeto da escrita colonial: foram seus autores, guardando os papéis como fonte de legitimidade e memória das suas linhagens.

O valor do acervo é reconhecido para a investigação em história, antropologia e linguística. As cartas documentam relações de poder, conflitos territoriais, sucessões de sobados e práticas comerciais, oferecendo uma perspetiva interna sobre o mundo mbundu que poucas outras fontes permitem. A presença do quimbundo e de formas locais de tratamento, a par do português, faz destes manuscritos um corpus precioso para o estudo do contacto entre línguas.

Da recolha à inscrição

Os documentos foram reunidos em Angola em 1934 por António de Almeida (1900–1994), médico e antropólogo, no quadro das missões científicas então em curso. Posteriormente, parte do conjunto foi transferida para o Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, em vários momentos, enquanto outra parcela permaneceu no Arquivo Histórico Nacional de Angola, em Luanda. Esta dupla guarda explica a natureza partilhada da candidatura, em que as duas instituições nacionais cooperaram para o reconhecimento internacional.

A inscrição de 2011 integra o conjunto de registos documentais ligados à expansão e à presença portuguesa em África reconhecidos pela UNESCO, a par de peças como o Tratado de Tordesilhas e o Corpo Cronológico, e de testemunhos da navegação como o Diário da Primeira Viagem de Vasco da Gama.

Significado e acesso

Mais do que um registo administrativo, os Arquivos dos Dembos são hoje encarados como um património africano de pleno direito, em torno do qual se discutem questões de proveniência, guarda e partilha do espólio entre Portugal e Angola. O seu estudo tem alimentado uma extensa bibliografia académica e projetos de digitalização que procuram tornar as cartas acessíveis a investigadores dos dois países e do espaço lusófono em geral. Conservados em condições de arquivo histórico, os manuscritos exigem consulta especializada, mas a sua inscrição na Memória do Mundo veio reforçar o reconhecimento público de um acervo que dá voz documental a sociedades africanas frequentemente silenciadas nas fontes coloniais.

Perguntas frequentes

O que são os Arquivos dos Dembos?
São um conjunto de cerca de 1160 documentos manuscritos, do final do século XVII ao início do século XX, produzidos e conservados por autoridades africanas da região dos Dembos, no norte de Angola, pertencentes ao grupo mbundu.
Quando foram inscritos no Registo Memória do Mundo da UNESCO?
Em 2011, numa candidatura conjunta apresentada por Portugal e Angola, através do Arquivo Histórico Ultramarino e do Arquivo Nacional de Angola.
Onde se conservam os documentos?
Uma parte está no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa, e outra parte no Arquivo Histórico Nacional de Angola, em Luanda.

Fontes

  1. UNESCO — Arquivos dos Dembos / Ndembu Archives (Memory of the World)
  2. Arquivos dos Dembos / Ndembu Archives — Wikidata (Q28028121)
  3. Arquivos dos Dembos aceites no Registo da Memória do Mundo da UNESCO — BAD