Património Mundial
Comentário ao Apocalipse de Beato de Liébana (Memória do Mundo)
Manuscritos iluminados do Comentário ao Apocalipse de Beato de Liébana, com os exemplares de Lorvão e Alcobaça, inscritos na Memória do Mundo da UNESCO em 2015.
O Comentário ao Apocalipse de Beato de Liébana designa uma vasta família de manuscritos medievais que copiam e ilustram a obra exegética escrita por um monge das Astúrias no final do século VIII. Em 2015, o conjunto destes códices da tradição ibérica foi inscrito no Registo da Memória do Mundo da UNESCO, numa candidatura conjunta apresentada por Portugal e Espanha. Pela qualidade das suas iluminuras, estes manuscritos são frequentemente descritos como dos mais belos e originais produzidos pela civilização medieval do Ocidente.
A obra de Beato e a tradição dos «beatos»
Por volta de 776–786, o monge Beato de Liébana redigiu um comentário ao Apocalipse de São João, compilando autores patrísticos para interpretar o livro derradeiro do Novo Testamento. A obra alcançou enorme difusão nos reinos cristãos da Península Ibérica, onde foi sucessivamente copiada entre os séculos X e XIII. As cópias subsistentes, conhecidas como «beatos», distinguem-se por extensos ciclos de imagens de vivo cromatismo, monumentos maiores da arte moçárabe e românica. Subsistem hoje cerca de duas dezenas de exemplares iluminados, dispersos por arquivos e bibliotecas europeias e americanas.
Os exemplares portugueses
A tradição ibérica integra dois testemunhos portugueses. O primeiro é o Apocalipse do Lorvão, copiado em 1189, no início do reinado de D. Sancho I, no scriptorium do mosteiro beneditino de Lorvão, perto de Coimbra. O códice foi escrito e provavelmente iluminado por um copista identificado como Egas (Egeas), que o enriqueceu com dezenas de iluminuras em tons de vermelho, laranja, amarelo e negro. Recolhido no século XIX pela Torre do Tombo na sequência da extinção das ordens religiosas, conserva-se hoje no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, com a cota PT/TT/MSML/B/44.
O segundo é o Apocalipse de Alcobaça, produzido no século XIII (1201–1300) no scriptorium do mosteiro cisterciense de Santa Maria de Alcobaça, a partir do modelo de Lorvão, de que retoma as glosas e as duas Tábuas do Anticristo. Ao contrário do exemplar de Lorvão, é uma das raras cópias do comentário desprovida de ilustrações, embora cuidada na mancha de escrita, na pautação e nas letras iniciais. Guarda-se na Biblioteca Nacional de Portugal, com a cota ALC. 247.
A passagem de Lorvão para Alcobaça mostra como um mesmo texto circulava entre comunidades monásticas portuguesas, transmitindo-se de cópia para cópia ao longo de um século.
Significado e classificação
A inscrição na Memória do Mundo, programa que reconhece o valor universal do património documental, sublinha a importância destes códices para a história da iluminura, da teologia e da cultura escrita peninsular. Os manuscritos ilustram a vitalidade dos scriptoria monásticos portugueses na transição do românico e a ligação cultural dos reinos ibéricos. Esta distinção integra o leque mais amplo de reconhecimentos da UNESCO em Portugal, a par dos sítios do Património Mundial e de outros registos da Memória do Mundo, como o Tratado de Tordesilhas e a Carta de Pero Vaz de Caminha.
Perguntas frequentes
- Quem foi Beato de Liébana?
- Foi um monge que viveu no norte da Península Ibérica na segunda metade do século VIII e que, por volta de 776–786, redigiu o Comentário ao Apocalipse, uma interpretação do último livro do Novo Testamento que deu origem a uma longa tradição de cópias iluminadas.
- Onde se podem ver os manuscritos portugueses desta candidatura?
- O Apocalipse do Lorvão conserva-se no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, em Lisboa, e o exemplar de Alcobaça na Biblioteca Nacional de Portugal; ambos têm reproduções digitais disponíveis em linha.
- A candidatura à Memória do Mundo foi só de Portugal?
- Não. A inscrição de 2015 foi uma candidatura conjunta de Portugal e Espanha, reunindo os códices da tradição ibérica dos beatos, incluindo os dois exemplares portugueses.