Monumentos
Sé da Guarda
A Sé da Guarda, catedral-fortaleza gótico-manuelina na cidade mais alta de Portugal, erguida entre 1390 e 1540 sob influência do Mosteiro da Batalha.
A Sé da Guarda ergue-se no ponto mais elevado da cidade mais alta de Portugal, dominando o casario com a sua silhueta austera de granito. Catedral e fortaleza ao mesmo tempo, é um dos últimos grandes testemunhos do gótico português e, simultaneamente, um dos seus mais expressivos momentos de transição para o manuelino. A sua construção, que se estendeu por cerca de século e meio, fixou na pedra a passagem da Idade Média tardia para o Renascimento.
Da Egitânia à cidade da Guarda
A diocese tem origens recuadas: foi a pedido de D. Sancho I ao Papa Inocêncio III que a sede episcopal da antiga Egitânia (Idanha-a-Velha) foi transferida para a nova cidade da Guarda, fundada em 1199 para reforçar a defesa da fronteira com Leão e Castela. Da primitiva catedral românica nada subsiste, e mesmo um segundo edifício foi sacrificado às reformas militares das muralhas no reinado de D. Fernando I.
A Sé que hoje conhecemos começou a ser erguida por volta de 1390, no reinado de D. João I, por iniciativa do bispo Vasco de Lamego, partidário da casa de Avis durante a crise dinástica de 1383-1385. As obras prosseguiram ao longo do século XV e conheceram uma fase decisiva de ampliação entre 1504 e 1517, sob o bispo Pedro Vaz Gavião, encerrando-se por volta de 1540.
Uma catedral-fortaleza entre o gótico e o manuelino
O edifício revela uma verdadeira amálgama de linguagens. O primeiro momento, gótico, surge sob a influência direta do Mosteiro da Batalha, então em construção, com cujos canteiros a obra da Guarda partilhou modelos e soluções. O segundo momento, manuelino, está longinquamente ligado à arte de Diogo Boitaca e manifesta-se no portal principal, nas colunas torsas de algumas naves e nas abóbadas nervuradas, em estrela e polinervadas, do transepto.
A planta é em cruz latina, com três naves escalonadas de cinco tramos, divididas por pilares de secção cruciforme, transepto saliente e cabeceira com abside e dois absidíolos poligonais. Na fachada principal, o portal manuelino é ladeado por duas robustas torres octogonais, maciças e em forma de quilha na base, que conferem ao conjunto o seu inconfundível caráter defensivo, reforçado pelos contrafortes, merlões e ameias.
O granito escuro da serra, o porte fortificado e a altitude de mais de mil metros fazem da Sé da Guarda uma das catedrais portuguesas onde melhor se lê a inseparável ligação entre fé, território e defesa da fronteira.
O retábulo de João de Ruão e o restauro revivalista
No interior destaca-se o monumental retábulo de pedra de Ançã da capela-mor, executado na década de 1550 pelo escultor de origem francesa João de Ruão (Jean de Rouen). Organizado em cerca de uma centena de figuras distribuídas por registos narrativos da vida de Cristo, é considerado uma obra-prima da escultura renascentista em Portugal. Merece igualmente atenção a Capela Pina, de gosto renascentista, com o túmbulo jacente do seu fundador.
Classificada como Monumento Nacional em 1907, a Sé foi alvo, em finais do século XIX, de uma intervenção do arquiteto Rosendo Carvalheira, um dos mais importantes projetos do restauro revivalista português, que procurou devolver ao templo a sua feição gótico-manuelina, removendo acrescentos posteriores.
Pela sua dignidade como catedral, a Sé da Guarda integra o conjunto das grandes sés e catedrais portuguesas, dialogando, na sua matriz medieval e na transição estilística, com edifícios como a Sé Velha de Coimbra. É hoje o coração monumental da Beira Alta e o símbolo maior da chamada cidade dos cinco efes — forte, farta, fria, fiel e formosa.
Perguntas frequentes
- Quando foi construída a Sé da Guarda?
- As obras da atual catedral iniciaram-se por volta de 1390, no reinado de D. João I, e prolongaram-se cerca de 150 anos, concluindo-se em torno de 1540, já em pleno período manuelino.
- Qual é o estilo arquitetónico da Sé da Guarda?
- A Sé conjuga um primeiro momento gótico, influenciado pelo Mosteiro da Batalha, e um segundo momento manuelino, visível no portal principal, nas abóbadas do transepto e nas torres octogonais da fachada.
- Quem fez o retábulo da capela-mor?
- O grande retábulo de pedra de Ançã da capela-mor foi executado na década de 1550 pelo escultor de origem francesa João de Ruão (Jean de Rouen), uma das obras maiores da escultura renascentista em Portugal.