Monumentos
Sé (Catedral) de Idanha-a-Velha
A antiga catedral de Idanha-a-Velha, basílica paleocristã e visigótica da Egitânia, no distrito de Castelo Branco: história, arquitetura e visita.
À margem da ribeira de Ponsul, num casario disperso por entre muralhas romanas e olivais, ergue-se um dos edifícios cristãos mais antigos de Portugal: a antiga catedral de Idanha-a-Velha, vulgarmente conhecida como Sé. A sua volumetria sóbria, quase severa, esconde uma estratigrafia rara, em que se sobrepõem o mundo romano, o paleocristão, o visigótico, o islâmico e a Baixa Idade Média. Poucos monumentos condensam tanta história numa planta tão modesta.
Da Egitânia romana à sé episcopal
A aldeia ocupa o lugar da civitas Igaeditanorum, fundada no tempo de Augusto e elevada a importante centro urbano da Lusitânia. Da cidade romana sobrevivem a muralha, lápides, aras e o aparelho de granito reaproveitado em quase todas as construções posteriores. Sob domínio visigótico, a antiga Egitânia tornou-se próspera sede de bispado, atestada nos concílios da Hispânia e numa série monetária com cunhagem própria — sinal do seu peso político e religioso. É neste contexto que se compreende a presença, numa povoação hoje tão pequena, de uma verdadeira catedral.
O edifício atual implantou-se sobre uma igreja paleocristã de planta retangular e três naves. A basílica visigótica, datada do século VI, manteve essa divisão tripartida, ritmada por arcos assentes em colunas cujos capitéis reaproveitam, com frequência, peças romanas. É um dos testemunhos mais eloquentes da arte visigótica em Portugal, de que restam, no país, escassos exemplares completos.
Numa aldeia de algumas dezenas de habitantes sobrevive, intacta na sua planta, a memória de uma diocese que rivalizava com as maiores da Lusitânia.
Mesquita, igreja e museu
Com a conquista islâmica da Península Ibérica, o templo terá sido adaptado a mesquita, num episódio que reforça a leitura do edifício como espaço continuamente reutilizado em vez de reconstruído. Após a Reconquista, D. Afonso Henriques doou a povoação à Ordem do Templo, em 1165, com o objetivo de a repovoar e defender, num território de fronteira ainda instável. A configuração que hoje observamos deve muito a uma remodelação quinhentista, no reinado de D. Manuel I, que regularizou volumes e vãos.
No interior conserva-se um notável conjunto epigráfico romano e tardo-antigo, reunido ao longo de campanhas de estudo e restauro, sendo o edifício, em rigor, tanto monumento como pequeno museu lapidar. A intervenção concluída nos anos 1960 fixou em larga medida a imagem atual e devolveu legibilidade às várias fases construtivas.
Visitar a Sé na aldeia histórica
A antiga catedral é o ponto alto de uma visita a Idanha-a-Velha, uma das mais antigas aldeias históricas de Portugal, onde o tecido urbano se confunde com o sítio arqueológico. Quem percorre o conjunto cruza-se com a muralha romana, a torre dos Templários, lagares e o testemunho contínuo da arqueologia romana que sustenta toda a leitura do lugar.
Comparada com as grandes catedrais medievais reunidas no roteiro das sés e catedrais portuguesas, a de Idanha-a-Velha distingue-se justamente pela ausência de monumentalidade gótica: o seu valor está na antiguidade, na continuidade de usos e na densidade arqueológica. Classificada como Imóvel de Interesse Público desde 1956, permanece um dos lugares indispensáveis para compreender a transição entre a Antiguidade Tardia e a formação do território português.
Perguntas frequentes
- Porque é que a Sé de Idanha-a-Velha tem uma planta tão antiga?
- Porque resulta de uma igreja paleocristã de três naves, reformulada como basílica visigótica no século VI, sobre a antiga civitas romana da Egitânia. Não é uma catedral medieval no sentido habitual, mas um dos mais raros testemunhos da arquitetura cristã anterior à conquista islâmica em Portugal.
- A Sé de Idanha-a-Velha chegou a ser mesquita?
- Sim. Após a conquista islâmica da Península Ibérica, o edifício terá sido adaptado a mesquita, voltando ao culto cristão depois da Reconquista, quando D. Afonso Henriques doou a povoação à Ordem do Templo em 1165.
- Ainda funciona como igreja?
- Não. Perdeu funções de culto no século XIX. Hoje é um espaço musealizado, integrado no circuito de visita da aldeia histórica de Idanha-a-Velha, e está classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1956.