Arqueologia

Siega Verde

Siega Verde, conjunto de arte rupestre paleolítica junto ao rio Águeda, em Salamanca, integrado desde 2010 no sítio UNESCO transfronteiriço do Vale do Côa.

Siega Verde
Vanbasten 23, CC0 — Wikimedia Commons

Siega Verde é um conjunto de arte rupestre ao ar livre situado na margem do rio Águeda, afluente do Douro, no município de Villar de la Yegua, província de Salamanca (Castela e Leão, Espanha). Embora se encontre já em território espanhol, encontra-se a poucos quilómetros da fronteira portuguesa de Vilar Formoso e está intimamente ligado, do ponto de vista cultural e patrimonial, ao conjunto de gravuras paleolíticas do Vale do Côa, com o qual partilha cronologia, técnica e reconhecimento internacional.

Um santuário paleolítico ao ar livre

Identificado em 1988 pelo arqueólogo Manuel Santonja Gómez durante um inventário arqueológico, o sítio compreende cerca de noventa painéis com mais de quinhentas representações distribuídas ao longo de aproximadamente um quilómetro de afloramentos xistosos junto ao leito do Águeda. As gravuras são maioritariamente zoomórficas: cavalos, uros, veados, cabras e outras espécies da fauna da última Idade do Gelo, executadas sobretudo por picotagem e por incisão filiforme.

A maior parte das figuras é atribuída ao Paleolítico Superior, com um núcleo central datável do período Gravettense, há cerca de vinte mil anos, e representações mais tardias do Magdalenense. Esta longa diacronia faz de Siega Verde, tal como acontece no Côa, um registo excecional da continuidade da expressão simbólica humana ao longo de milénios.

A grande lição de Siega Verde e do Côa é que a arte do Paleolítico não viveu apenas no recato das grutas: floresceu também à luz do dia, gravada nas rochas dos vales fluviais que estruturavam a vida dos caçadores-recolectores.

Técnica e iconografia

Ao contrário da arte parietal das cavernas franco-cantábricas, as gravuras de Siega Verde foram realizadas em superfícies expostas, sobre as paredes rochosas que ladeiam o rio. A técnica dominante é a picotagem, obtida pela percussão repetida com um instrumento lítico, que produz contornos formados por pequenas depressões alinhadas; surge também a incisão fina, traçada com objetos de ponta aguçada.

O bestiário gravado coincide largamente com o repertório da arte rupestre paleolítica ibérica, integrando-se na tradição de figuração animal que percorre toda a Europa do Paleolítico Superior. A convergência estilística com o Côa, separado de Siega Verde apenas pela fronteira, demonstra que ambos os conjuntos pertencem a um mesmo horizonte cultural, partilhado por comunidades que circulavam pelos vales do Douro e dos seus afluentes.

Classificação como Património Mundial

Reconhecido pela Junta de Castela e Leão como Bien de Interés Cultural em 1998, Siega Verde foi inscrito na Lista do Património Mundial da UNESCO em 2010, como alargamento do sítio do Vale do Côa — classificado em 1998. Esta extensão transformou o bem num conjunto transfronteiriço luso-espanhol, designado “Sítios Pré-Históricos de Arte Rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde”, reunindo sob uma mesma classificação as duas mais notáveis concentrações de arte pré-histórica ao ar livre da Península Ibérica.

A gestão conjunta dos dois conjuntos sublinha a unidade de um território cultural que a fronteira política não interrompe. Para o visitante, Siega Verde constitui um complemento natural à descoberta das gravuras do Côa, permitindo compreender, de um e de outro lado da raia, a dimensão verdadeiramente paleolítica deste extraordinário arquivo gravado na pedra.

Perguntas frequentes

Onde fica Siega Verde?
Siega Verde situa-se junto ao rio Águeda, no município de Villar de la Yegua, província de Salamanca (Castela e Leão, Espanha), a poucos quilómetros da fronteira portuguesa de Vilar Formoso.
Porque é que Siega Verde aparece associado ao Vale do Côa?
Em 2010 a UNESCO alargou a classificação do Vale do Côa para incluir Siega Verde, criando um sítio de Património Mundial transfronteiriço luso-espanhol dedicado à arte rupestre paleolítica ao ar livre.
Que tipo de gravuras existem em Siega Verde?
Predominam gravuras zoomórficas — cavalos, uros, veados, cabras e outros animais — distribuídas por cerca de 90 painéis ao longo de aproximadamente um quilómetro de afloramentos rochosos.

Fontes

  1. UNESCO World Heritage Centre — Côa Valley and Siega Verde (866)
  2. Wikipédia — Siega Verde
  3. DGPC — Sítios Pré-Históricos de Arte Rupestre do Vale do Côa e de Siega Verde