Períodos & Estilos

Romantismo e Arquitetura Revivalista

Romantismo e revivalismos na arquitetura portuguesa do século XIX: o neomanuelino, o neogótico e o neoárabe, do Palácio da Pena a Monserrate e ao Buçaco.

Romantismo e Arquitetura Revivalista
Dale Cruse - 10M views from San Francisco, CA, USA, CC BY 4.0 — Wikimedia Commons

O Romantismo introduziu na arquitetura portuguesa do século XIX uma sensibilidade nova, feita de evocação histórica, gosto pelo pitoresco e diálogo intenso entre a construção e a paisagem. Em rutura com a sobriedade do Neoclassicismo então dominante, os arquitetos e encomendantes românticos voltaram-se para o passado medieval e quinhentista, reinterpretando-o livremente. Desta atitude historicista nasceram os revivalismos: linguagens que reciclavam vocabulários antigos — gótico, manuelino, islâmico — não para os reconstituir com rigor arqueológico, mas para com eles compor cenários carregados de emoção e memória.

Da nostalgia ao programa nacional

O ponto de viragem fixa-se em Sintra. A partir de 1839, o rei consorte D. Fernando II de Saxe-Coburgo-Gota adquiriu as ruínas do antigo Mosteiro de Nossa Senhora da Pena e, com o apoio do engenheiro alemão Wilhelm Ludwig von Eschwege, ergueu sobre o cume da serra uma fantasia palaciana que se tornaria o manifesto do Romantismo português. O Palácio Nacional da Pena conjuga, num mesmo conjunto, elementos neogóticos, neomanuelinos, neoárabes e neorrenascentistas, dispostos com uma liberdade cénica que privilegia o efeito poético sobre a coerência estilística.

A novidade não foi apenas formal. Num tempo de afirmação dos nacionalismos, o passado tornou-se matéria política, e a arquitetura procurou nas formas históricas um espelho da identidade coletiva. Portugal encontrou esse espelho no estilo neomanuelino, revivalismo do gosto da época de D. Manuel I — a do Mosteiro dos Jerónimos e da Torre de Belém — convertido em estilo nacional. Onde a restante Europa adotou sobretudo o neogótico como linguagem patriótica, Portugal cultivou um vocabulário próprio, associado à memória dos Descobrimentos e à grandeza marítima.

O revivalismo não copiava o passado: convocava-o. Cada citação manuelina ou mourisca era menos um exercício de arqueologia do que uma forma de habitar a História.

Os estilos do gosto romântico

Sob o guarda-chuva do historicismo coexistiram várias famílias revivalistas. O neogótico inspirava-se na arquitetura medieval cristã; o neorromânico recuperava o peso das formas anteriores; o neoárabe, particularmente apreciado em jardins e salões de receção, evocava a herança islâmica peninsular através de arcos ferradura, estuques e azulejaria. Frequentemente, estas linguagens não surgiam isoladas, mas combinadas num ecletismo deliberado, em que o projeto valia precisamente pela sua diversidade.

O segundo grande monumento sintrense, o Palácio de Monserrate, ilustra bem essa fusão: o gótico, o mourisco e o renascentista entrelaçam-se com naturalidade, prolongando-se num parque botânico que faz da própria natureza parte da obra. A relação entre edifício e paisagem — montanha, mata, jardim — é, de resto, um traço definidor do gosto romântico, herdado da tradição inglesa do jardim pitoresco.

Persistência e desfecho

O Romantismo não foi um episódio breve. Prolongou-se até ao início do século XX, deixando obras tardias de grande ambição cenográfica. O cenógrafo e arquiteto italiano Luigi Manini concebeu o Palácio Hotel do Buçaco, réplica erudita de motivos manuelinos da Torre de Belém e dos Jerónimos, e projetou também a Quinta da Regaleira (concluída em 1910), em Sintra, síntese esotérica e simbólica do imaginário revivalista.

Quando, nas primeiras décadas do século XX, a Arte Nova e depois o modernismo impuseram novas gramáticas, o ciclo encerrou-se. Mas o legado romântico fixou-se na paisagem cultural portuguesa: nos palácios, quintas de recreio e jardins que transformaram serras e arrabaldes em cenários habitados pela memória, e que ainda hoje contam entre os lugares mais singulares do património nacional.

Perguntas frequentes

Quando surgiu a arquitetura romântica em Portugal?
Considera-se que o Romantismo arquitetónico se afirma em Portugal a partir do final da década de 1830, com o início da construção do Palácio da Pena, em Sintra, mantendo-se vital até ao início do século XX.
O que distingue o revivalismo português dos restantes europeus?
Enquanto a Europa elegeu sobretudo o neogótico como estilo nacional, Portugal cultivou o neomanuelino, revivalismo do gosto manuelino quinhentista usado como expressão de identidade nacional.
Quais são os principais exemplos do Romantismo arquitetónico em Portugal?
Destacam-se o Palácio Nacional da Pena e o Palácio de Monserrate, em Sintra, o Palácio Hotel do Buçaco e a Quinta da Regaleira, todos marcados pela mistura erudita de estilos historicistas.

Fontes

  1. Romantismo em Portugal — Wikipédia
  2. Estilo neomanuelino — Wikipédia
  3. Neomanuelino ou o revivalismo português do século XIX — RTP Ensina