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Trancoso

Trancoso, cidade muralhada do distrito da Guarda, com castelo medieval, muralhas dionisinas e uma das mais importantes heranças judaicas da Beira Alta.

Trancoso
Gerd Eichmann, CC BY-SA 4.0 — Wikimedia Commons

Erguida num planalto granítico da Beira Alta, sobranceira às terras que se estendem da Serra da Estrela ao vale do Douro, Trancoso é uma das doze Aldeias Históricas de Portugal e uma das mais completas povoações muralhadas do interior do país. O seu casario apinhado dentro do perímetro defensivo, dominado pela silhueta do castelo, faz dela um raro exemplar de cidade medieval que conservou, quase intacta, a sua morfologia original.

A antiguidade de Trancoso é anterior à própria nacionalidade. O castelo existia já antes da fundação do reino, e a posição estratégica do lugar, na fronteira disputada entre cristãos e muçulmanos, valeu-lhe campanhas e saques — entre eles o de Almançor, em finais do século X. Com a consolidação do reino, D. Afonso Henriques concedeu-lhe foral, formalizando uma vila que se tornaria praça militar de primeira ordem na defesa da Beira.

As muralhas e o castelo

O conjunto fortificado de Trancoso é o seu maior tesouro. As muralhas dionisinas, mandadas erguer e reforçar por D. Dinis no final do século XIII, cingem por completo o núcleo histórico, com torreões e portas que ainda hoje regulam o acesso ao interior — a Porta d’El-Rei e a célebre Portas do Carvalho entre elas. No topo da colina, o Castelo de Trancoso, com a sua torre de menagem e a barbacã, foi palco de episódios decisivos: foi aqui que, em 1385, pouco antes de Aljubarrota, as tropas portuguesas alcançaram uma vitória que abriu caminho à afirmação da dinastia de Avis.

Poucas vilas portuguesas conservam um anel de muralhas tão íntegro, capaz de devolver ao visitante a escala exata de uma cidade medieval.

A importância de Trancoso ficou também ligada a um episódio dinástico: foi nesta vila que, em 1282, se celebrou o casamento de D. Dinis com a infanta aragonesa Isabel, futura Rainha Santa. O facto reforçou o estatuto da povoação e justificou, em parte, o investimento régio nas suas defesas.

A judiaria e a memória sefardita

Trancoso abrigou, ao longo da Idade Média, uma das comunidades judaicas mais numerosas e prósperas da região. A antiga judiaria ocupava um quarteirão denso de ruas estreitas, onde subsistem portais com vestígios de inscrições e a chamada Casa do Gato Preto, edifício quinhentista com simbologia que a tradição associa à presença judaica. Após o édito de expulsão de 1496, muitos habitantes converteram-se ao cristianismo, mantendo em segredo a sua fé — uma herança cripto-judaica que aproxima Trancoso de outros lugares beirões como Belmonte.

É deste mundo que emerge a figura mais singular da vila: Gonçalo Anes Bandarra, sapateiro nascido por volta de 1500, cujas Trovas de tom profético e messiânico foram amplamente copiadas e censuradas. Processado pela Inquisição, o Bandarra tornar-se-ia uma das raízes do sebastianismo e a sua obra ecoaria séculos depois no Padre António Vieira e em Mensagem, de Fernando Pessoa. A sua memória vive hoje no Centro de Interpretação da Cultura Judaica Isaac Cardoso, instalado no coração da antiga judiaria.

Um roteiro de granito e fronteira

Elevada a cidade em 2004, Trancoso mantém viva a tradição da feira de São Bartolomeu, com raízes no foral feirante medieval, e integra-se num percurso de fortalezas e aldeias graníticas que pontuam o planalto da Beira. Quem a visita prolonga naturalmente o roteiro até à vizinha Sortelha, encravada na sua rocha, ou até à cidade-fronteira da Guarda, a mais alta de Portugal. Percorrer o interior das muralhas de Trancoso, entre casas brasonadas, ruelas calcetadas e portais antigos, é atravessar, num só lugar, a fronteira medieval, a convivência de fés e a memória profética que deram nome a esta cidade da Beira.

Perguntas frequentes

Onde fica Trancoso?
Trancoso situa-se no distrito da Guarda, na sub-região da Beira Interior Norte (região Centro), num planalto da Beira Alta a cerca de 30 km a noroeste da cidade da Guarda.
Quem foi o Bandarra de Trancoso?
Gonçalo Anes Bandarra foi um sapateiro e poeta nascido em Trancoso por volta de 1500, autor das Trovas que alimentaram o sebastianismo. Foi processado pela Inquisição e a sua obra influenciou o Padre António Vieira e Fernando Pessoa.
Porque é Trancoso importante para o património judaico?
Trancoso teve uma das maiores comunidades judaicas da Beira. A antiga judiaria conserva portais e a chamada Casa do Gato Preto, e acolhe hoje o Centro de Interpretação da Cultura Judaica Isaac Cardoso.

Fontes

  1. Trancoso — Wikipédia
  2. Trancoso — Aldeias Históricas de Portugal
  3. Município de Trancoso — Câmara Municipal