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Belmonte
Belmonte, aldeia histórica do distrito de Castelo Branco e berço de Pedro Álvares Cabral, com castelo medieval, torre romana e comunidade cripto-judaica única.
Encravada num esporão granítico sobranceiro ao vale do Zêzere, na vertente sul da Serra da Estrela, Belmonte é uma das doze Aldeias Históricas de Portugal e um dos lugares mais densos de memória do interior beirão. O seu nome — belo monte — descreve com exatidão a posição que lhe valeu a vocação militar: um povoado fortificado que vigiava a fronteira da Beira e as rotas que ligavam a Cova da Beira ao planalto da Guarda.
A importância de Belmonte radica na Idade Média. Em 1199, D. Sancho I concedeu-lhe foral, formalizando um reduto defensivo que, no final do século XIII, se transformaria num castelo de pedra. Em torno dele cresceu uma vila próspera, dotada de duas igrejas — Santiago e Santa Maria — e de uma sinagoga, sinal de uma convivência de comunidades que marcaria de forma indelével a identidade do lugar.
O castelo e a memória de Cabral
O Castelo de Belmonte, com a sua torre de menagem e as muralhas que abraçam a colina, é o ex-líbris da vila. A sua história ficou ligada à dos Descobrimentos: os alcaides do castelo pertenciam à família Cabral, e é em Belmonte que a tradição situa o nascimento, por volta de 1467-1468, de Pedro Álvares Cabral, comandante da armada que em 1500 alcançou as costas do Brasil. Junto à fortaleza ergue-se a Igreja de São Tiago, templo românico tardio que guarda o Panteão dos Cabrais, com tumulação da linhagem do navegador, e uma comovente imagem mariana, a Nossa Senhora da Esperança, que a tradição diz ter acompanhado a viagem ao Atlântico.
Poucos lugares em Portugal condensam, em tão escassos metros, a fronteira medieval, a epopeia oceânica e a resistência de uma fé clandestina.
A última comunidade cripto-judaica
A face mais singular de Belmonte é a sua comunidade judaica. Após o édito de conversão forçada de 1496, parte dos judeus da vila tornou-se cristã-nova, mantendo, porém, em segredo absoluto, os ritos da sua fé. Isolada e endogâmica, esta comunidade cripto-judaica resistiu à vigilância inquisitorial ao longo de séculos, transmitindo orações e tradições por via oral e quase exclusivamente feminina.
Foi em 1917 que o engenheiro de minas polaco Samuel Schwarz, ao instalar-se na região, descobriu com espanto que aqueles habitantes se julgavam os últimos judeus do mundo. A sua obra, publicada em 1925, deu a conhecer o fenómeno. A comunidade só assumiu publicamente a sua identidade no século XX, com a abertura da sinagoga Bet Eliahu em 1996 e, em 2005, do Museu Judaico de Belmonte, o primeiro do género em Portugal.
Património romano e a paisagem da Beira
A cerca de quatro quilómetros do centro histórico ergue-se a Torre de Centum Cellas, enigmático monumento romano de granito, datado do século I, cuja função original — villa, posto fiscal ou alojamento de viajantes — permanece em debate entre os arqueólogos. É um dos vestígios romanos mais bem conservados do país e prolonga, para um passado ainda mais recuado, a antiguidade da ocupação humana neste território.
Belmonte integra-se assim num roteiro de fortalezas e aldeias graníticas que pontuam o interior centro do país, em diálogo com lugares como Sortelha e Trancoso, e com a vizinha cidade-fronteira da Guarda. Percorrer as suas ruas calcetadas, ladeadas de casas brasonadas e de portais judaicos, é atravessar, num só lugar, várias camadas da história portuguesa.
Perguntas frequentes
- Onde fica Belmonte?
- Belmonte situa-se no distrito de Castelo Branco, na sub-região das Beiras e Serra da Estrela, na margem esquerda do rio Zêzere, a cerca de 30 km da cidade da Guarda.
- Porque é Belmonte conhecida por Pedro Álvares Cabral?
- Belmonte é tradicionalmente apontada como o berço de Pedro Álvares Cabral, comandante da armada que em 1500 alcançou o Brasil. A família Cabral foi alcaide do castelo e está sepultada na Igreja de São Tiago.
- O que torna a comunidade judaica de Belmonte única?
- Belmonte preservou, em segredo e durante séculos, uma comunidade cripto-judaica que sobreviveu à Inquisição. Foi revelada ao mundo em 1917 pelo engenheiro Samuel Schwarz.